As guinadas de Obama em relação à Síria

Cláudia Trevisan

11 Setembro 2013 | 17h02

A decisão de Barack Obama de buscar uma saída diplomática para a crise síria foi mais uma guinada surpreendente de um presidente que se mostrou vacilante e confuso em seus esforços para convencer a opinião pública e o Congresso americanos da necessidade de uma ação militar contra o regime de Bashar Assad.

Em entrevista à rede PBS anteontem, Obama reconheceu que sua retórica não tinha eco nem mesmo dentro de sua casa: “Se você falar com membros de minha própria família, ou da Michelle, eles estão muito cautelosos e desconfiados em relação a qualquer ação (contra a Síria)”.

A maioria da população americana tem manifestado a mesma resistência, depois de uma década de conflitos no Oriente Médio que trouxeram resultados duvidosos e custaram quase US$ 2 trilhões.

A tarefa de convencimento é dificultada pelo fato de que a ação é definida mais pelo que ela não seria do que pelos seus objetivos: não é uma
intervenção sem prazo para acabar, não é uma tentativa de derrubar Bashar Assad, não levará ao fim da guerra civil, não impedirá que civis continuem a morrer, não envolverá a entrada de tropas na Síria, não é uma declaração de guerra, não é Iraque, não é Afeganistão.

O que deixa em aberta a questão sobre o que ela realmente seria. Segundo Obama, a intenção é punir Assad pelo ataque com armas químicas do dia 21 _que o serviço de inteligência dos EUA sustenta ter sido ordenado por seu regime.

Anteontem, o secretário de Estado, John Kerry, ajudou a enfraquecer os argumentos do governo com a afirmação de que a operação seria “inacreditavelmente pequena”, o que reforçou a posição dos que consideram que ela não teria eficácia.

E Obama foi ambivalente desde o início da crise. Depois de uma semana na qual deu todas as indicações de que um ataque à Síria era iminente, ele anunciou no dia 31 que pediria autorização de deputados e senadores para a operação _apesar de ressaltar que poderia agir sem o aval dos parlamentares.

Agora, logo depois de sua administração lançar uma megaoperação de relações públicas para tentar convencer o Congresso e a opinião pública da necessidade de atacar a Síria, o presidente mudou de posição mais uma vez e disse que uma saída negociada é possível.

A grande ironia é que a porta para uma solução diplomática parece ter sido aberta sem querer por Kerry. Durante entrevista em Londres, na segunda-feira, ele disse que Assad poderia evitar uma ataque americano se abrisse mão de suas armas químicas no prazo de uma semana _algo que o próprio secretário considerou impraticável.

Mas o que era um exercício retórico acabou se transformando em uma diplomacia acidental, quando o ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov, decidiu responder a Kerry e apresentar uma proposta concreta de transferência das armas químicas da Síria ao controle da comunidade internacional. Tomara que funcione.