As razões do Google

Cláudia Trevisan

25 de março de 2010 | 05h02

Desde a Olimpíada de Pequim, em agosto de 2008, o Google enfrentou dificuldades crescentes para atuar na China, em razão do aumento da pressão das autoridades para que o site ampliasse cada vez mais a autocensura do conteúdo buscado por seus usuários no país. A avaliação foi feita por um dos principais executivos da empresa, David Drummond, em entrevista a James Fallows, da revista The Atlantic, veiculada no blog do jornalista.

“Apesar de nós estarmos ampliando nossa fatia de mercado, se tornou cada vez mais difícil para nós operarmos lá [na China]. Particularmente em relação à censura. Nós tínhamos que censurar cada vez mais. A situação ficou sensivelmente pior, não apenas para nós, mas para outras companhias de internet também”, disse Drummond, autor do comunicado postado no blog oficial da companhia que anunciou a decisão de transferir o site chinês para Hong Kong.

O executivo afirmou que a decisão do Google de não mais praticar a autocensura na China está relacionada aos ataques de hackers contra seu sistema mencionados no dia 12 de janeiro, quando a companhia divulgou pela primeira vez a possibilidade de sair do país asiático. Segundo ele, o alvo eram quase exclusivamente contas do Gmail utilizadas por ativistas de direitos humanos dentro e fora da China. “Havia um aspecto político nesses ataques de hackers que era bastante inusual”, observou.

A empresa avaliou que a incoporação das regras da censura a seu mecanismo de buscas a transformava em uma espécie de cúmplice do regime chinês. “Para nós, pareceu que isso tudo era parte de um amplo sistema voltado a suprirmir a [liberdade de] expressão, seja pelo controle das buscas na internet ou pela tentativa de vigiar ativistas. Tudo era parte do mesmo programa repressivo, do nosso ponto de vista. Nós sentimos que estávamos sendo parte disso.”

O governo chinês se esforça para neutralizar o caráter político da decisão do Google. Todos os jornais do país repetiram a posição de que a transferência do google.cn para Hong Kong teve motivações puramente comerciais, ligadas às dificuldades da companhia em ampliar sua fatia no mercado local.

A China é um dos poucos países do mundo em que o Google não é o líder do mercado de buscas. Essa posição é ocupada pelo Baidu, que detém uma fatia de 63% desse segmento e que será o maior beneficiado pela saída do site norte-americano da China.

A entrevista de Drummond a Fallows pode ser lida aqui.

Tudo o que sabemos sobre:

CensuraChinaGoogle

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.