As reformas e a encruzilhada chinesa

Cláudia Trevisan

16 de março de 2012 | 14h29

O Partido Comunista da China se prepara para a transição de poder a uma nova geração de líderes incerto sobre o rumo a seguir e envolto em uma feroz disputa interna, que ficou evidenciada pela queda na semana passada do ex-chefe de Chongqing, Bo Xilai, que era o mais ostensivo candidato ao órgão máximo de comando do país. As divisões provocam paralisia das reformas pró-mercado que integraram a China à globalização e estagnação ou retrocesso nas mudanças políticas, depois de três anos de endurecimento da repressão aos críticos do governo.

A dramática defesa de reformas políticas feita pelo primeiro-ministro Wen Jiabao em entrevista coletiva na quarta-feira reflete a dificuldade de promoção da agenda dentro de um Partido cindido internamente. Menos de um ano antes de terminar seu mandato, o premiê afirmou que a inação pode levar a China a reviver “tragédias” semelhantes à Revolução Cultural (1966-1976), o movimento comandado por Mao Tsé-tung que provocou milhões de mortes, levou ao fechamento de escolas e universidades, promoveu a perseguição de líderes do Partido Comunista e intelectuais e deixou a sociedade chinesa à beira da ruptura.

O afastamento de Bo Xilai representa um duro golpe para ala à esquerda do Partido, que estava cada vez mais unida em torno do “modelo de Chongqing”, a receita que privilegia o papel do Estado na economia, busca redução das desigualdades e resgata as canções vermelhas maoístas que estiveram em voga na Revolução Cultural.

“Eu acredito que a queda de Bo Xilai vai fazer com que o processo de reformas avance e a direção será ‘à direita’”, opinou o professor do Departamento de Política da Universidade do Povo, Zhang Ming. Segundo ele, a etapa inicial da abertura chinesa foi inspirada pelo ocidente, com regras pró-mercado e integração ao comércio global. Em anos recentes, o país começou a retroceder aos princípios maoístas, movimento que teria sido estancado com a queda de Bo Xilai. “O ‘modelo de Chongqing’ era um erro”, afirmou Zhang.

Mas outros acreditam que a queda do líder da “nova esquerda” não significa a remoção das resistências às reformas liberalizantes no mercado e na política. “O apelo do sistema que privilegia a presença do Estado na economia vai além de Bo Xilai e do modelo de Chongqing”, observou o economista norte-americano Patrick Chovanec, professor da Universidade Tsinghua, para o qual a última grande reforma realizada pela China foi a entrada na Organização Mundial do Comércio (OMC), em 2001. “Não está claro qual caminho a China seguirá no futuro”, ressaltou.

“As reformas morreram”, afirma o analista político independente Chen Zemin. O ímpeto mudancista perdeu fôlego em meados da década passada e sofreu um revés com a crise financeira de 2008, da qual a China saiu relativamente ilesa graças a um pacote de estímulo que ampliou o poder do Estado na economia e fortaleceu as empresas controladas pelo governo.

Parte dos líderes comunistas se convenceu de que o modelo de capitalismo de Estado chinês é superior ao falido capitalismo ocidental, que até então era a fonte inspiradora das reformas que pregavam abertura e desregulamentação da economia.

A expectativa de mudanças na área política se reduziu a partir de 2008 e 2009, quando conflitos étnicos chacoalharam o Tibete e Xinjiang, respectivamente. O cenário piorou ainda mais em 2011, depois de convocação anônima de protestos semelhantes aos ocorridos na Revolução do Jasmim dos países árabes. O Partido Comunista reagiu com uma onda repressiva que levou à detenção de dezenas de ativistas políticos e a condenação de alguns deles a penas de até dez anos de prisão sob acusação de subversão.

A resposta da China à crise global fortaleceu ainda mais as gigantescas empresas estatais, que empregam milhões de pessoas, atuam nas mais diversas áreas, recebem a maior parte do crédito bancário barato e realizaram os investimentos que garantiram o crescimento do país enquanto o mundo desenvolvido agonizava.

O slogan que passou a identificar esse movimento é guo jin, min tui, ou o Estado avança e o setor privado recua. “Há um sentimento entre investidores estrangeiros e empresários locais de que as regras do jogo estão cada vez mais favoráveis às empresas estatais, às custas de todos os demais”, avalia Chovanec.

Apesar do sucesso no combate aos efeitos da crise, o próprio governo reconhece que o modelo de desenvolvimento têm que mudar para ser sustentável. Mas as propostas de reformas enfrentam oposição feroz em segmentos importantes do Partido Comunista e das estatais que se fortaleceram nos últimos anos e ainda não está claro quem vencerá a disputa.

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