Atentados terroristas podem fortalecer Trump

Cláudia Trevisan

23 Maio 2016 | 00h33

Minutos depois de as TVs americanas noticiarem a queda do avião da EgyptAir, na quinta-feira, Donald Trump disparou um twitter no qual levantou a hipótese de terrorismo. “Quando nós vamos ser duros, espertos e vigilantes?”, perguntava na mensagem.

Naquele momento, nenhuma autoridade havia mencionado a possibilidade de derrubada intencional da aeronave. As investigações ainda estão em andamento e não há uma conclusão definitiva sobre o que ocorreu durante o voo entre Paris e o Cairo. Vista como uma irresponsabilidade por seus críticos, o twitter reforçou a imagem que Trump tenta construir: a do líder que será implacável no combate ao radicalismo, sem amarras do que classifica como “politicamente correto”.

O candidato republicano se diz favorável à tortura de suspeitos de terrorismo, defende o assassinato de integrantes de suas famílias e propõe o veto à entrada de muçulmanos nos Estados Unidos. As medidas contrariam a Constituição americana e os tratados internacionais ratificados pelo país. Mas cada atentado reforça o apelo da retórica de Trump, centrada em supostas ameaças externas –sejam terroristas, imigrantes ou práticas comerciais chinesas.

Pesquisa divulgada pela Fox News na quinta-feira mostrou que 52% dos entrevistados consideravam a democrata Hillary Clinton como a mais preparada para comandar a política externa do país, dez pontos a mais que os 42% que apontavam Trump. Mas quando a pergunta se referia de maneira específica ao terrorismo, a situação se invertia: 52% diziam confiar mais no republicano para enfrentar o desafio. Hillary foi escolhida por 40%.

Eleitores de três Estados que podem ser decisivos na eleição –Flórida, Ohio e Pensilvânia, também manifestaram preferência por Trump no combate ao terrorismo, segundo levantamento da Universidade Quinnipiac. Ainda assim, a maioria disse acreditar que a democrata tem o temperamento mais adequado para enfrentar uma crise internacional.

Como na maioria de suas propostas, Trump não oferece detalhes de como pretende derrotar o terrorismo e lança mão de slogans que seduzem parcela crescente do eleitorado americano. “Olhem como o mundo está hoje, um caos total, e o ISIS ainda está andando por aí de maneira desenfreada”, escreveu o bilionário em outro twitter, na sexta-feira, referindo-se ao Estado Islâmico. “Eu posso resolver isso rápido, Hillary não tem chance!”

A reação de ambos à queda do avião da EgyptAir evidenciou a marcante diferença dos estilos que se enfrentarão durante a campanha. Em contraste com a declaração impulsiva de Trump, a ex-secretária de Estado só se manifestou sobre o assunto depois que autoridades egípcias e americanas mencionaram a suspeita de derrubada intencional do avião.

Em entrevista à CNN, Hillary adotou um tom sóbrio ao falar do assunto. “Parece que foi um ato de terrorismo. Exatamente como (ocorreu) será determinado no curso da investigação”, declarou. Segundo ela, a queda da aeronave “joga luz” sobre a ameaça representada por grupos terroristas e exige que os EUA reforcem sua liderança global –algo que, em sua opinião, Trump não pode oferecer.

“Eu conclui que ele não é qualificado para ser presidente dos Estados Unidos”, disse Hillary, apontando para declarações “irresponsáveis, perigosas e descuidadas” do republicano. Para a candidata, Trump está sendo por grupos terroristas como “recrutador” de seguidores.

O bilionário respondeu com uma lista de atentados que ocorreram nos últimos 16 anos. “Olhem para a carnificina em todo o mundo, incluindo o World Trade Center, San Bernardino, Paris, o USS Cole, Bruxelas e um número ilimitado de outros lugares.” Trump também criticou sua adversária e o presidente Barack Obama pela cautela que ambos adotam em suas declarações: “Ela e nosso totalmente ignorante presidente nem mesmo usam o termo terrorismo islâmico radical”.