Ato de Obama não trará de volta os 2 mi deportados em seu governo

Cláudia Trevisan

21 Novembro 2014 | 15h21

Seis anos e depois de chegar à presidência dos EUA e com um recorde de 2 milhões de deportações nas costas, o presidente Barack Obama decidiu agir de maneira unilateral em relação ao crônico problema de imigrantes indocumentados em seu país e adotar medidas que podem beneficiar até 5 milhões de pessoas –mais que a população do Uruguai. As milhares de pessoas que foram separadas de suas famílias e expulsas dos Estados Unidos na gestão do presidente democrata devem estar se perguntando por que ele demorou tanto a tomar a decisão. Ou por que embarcou em uma estratégia fracassada de aplicar a lei com rigor na esperança de convencer os opositores republicanos a aprovarem uma ampla reforma de imigração.

A política de deportações recordes de Obama provocou a desestruturação de centenas de milhares de famílias, com a separação de pais e filhos e de mulheres e maridos. Só no ano passado, 72,4 mil pessoas deportadas declaram ter um ou mais filhos nascidos nos Estados Unidos, grande parte dos quais ficaram para trás.

Há um ano eu viajei para Tijuana, no México, para onde são mandados muitos dos que são expulsos do solo americano. Em um abrigo para mulheres eu entrevistei inúmeras mães que haviam sido deportadas depois de viverem nos Estados Unidos a maior parte de suas vidas e terem visto seus filhos nascer no país. Pequenos descuidos, como infrações de trânsito, provocaram o seu encontro com agentes da lei. Algumas foram detidas pela manhã e deportadas na tarde do mesmo dia. Só quando já estavam no México foram capazes de entrar em contato com a família para dizer que não voltariam para casa –talvez para sempre. Vocês podem ler

Documento

as reportagens que escrevi na época.

Há um ano, Obama participou de um evento sobre a reforma de imigração em San Francisco, na Califórnia, Estado que concentra a maior população latina dos EUA. Enquanto o presidente discursava, estudantes que estavam na plateia começaram a gritar “pare as deportações”. Alguns enfrentavam o drama da separação familiar em suas próprias casas. Um deles fez um apelo direto ao presidente: “Eu preciso de sua ajuda. Minha família será separada no dia de Ação de Graças. Por favor, use seu poder executivo. Você tem o poder de parar as deportações”, gritou o sul-corenao Ju Hong, de 24 anos, trazido aos Estados Unidos por seus pais 13 anos antes.

Obama respondeu com o mesmo argumento usado pelo opositores republicanos que atacaram as medidas anunciadas nesta quinta-feira: “Se de fato eu pudesse resolver todos esses problemas sem passar leis no Congresso, então eu faria isso. Mas nós somos uma nação de leis”. Um ano mais tarde, o presidente democrata mudou de ideia e concluiu que tem sim o poder de suspender deportações e evitar que milhares de famílias continuem a ser separadas. Mas não poderá trazer de volta os que já foram expulsos.