Atraso brasileiro pode comprometer cooperação espacial com a China para a fabricação de satélites

Cláudia Trevisan

24 de agosto de 2011 | 08h03

O Brasil assumiu segunda-feira o compromisso de lançar em novembro de 2012 a nova versão do satélite que desenvolve em conjunto com a China e um atraso poderá “implodir” o relacionamento com o país asiático, afirmou o presidente da Agência Espacial Brasileira (AEB), Marco Antonio Raupp.
”Temos que cumprir nosso cronograma, porque estamos cinco anos atrasados”, declarou Raupp, depois de reunião em Pequim do grupo bilateral responsável pela cooperação espacial.
 Iniciado em 1988, o programa é o mais sólido pilar da relação Brasil-China e já levou ao lançamento de três Satélites Sino-Brasileiros de Recursos Terrestres, chamados de CBERS na sigla em inglês e numerados como 1, 2 e 2-B. O quarto, batizado de CBERS-3, deveria ter entrado em órbita em 2007, mas o Brasil não conseguiu cumprir os prazos de entrega de equipamentos previstos no acordo.

Na reunião de segunda-feira, os representantes de Brasília ouviram dos chineses cobranças para definição de um cronograma detalhado que permita o lançamento do CBERS-3 em novembro de 2012 e do CBERS-4 em 2013. Segundo o diretor do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), Gilberto Câmara, uma das principais razões para o atraso foi a dificuldade da indústria nacional de desenvolver e produzir os equipamentos que deverão ser entregues pelo Brasil. Nos três primeiros satélites, a China era responsável por 70% dos componentes. A partir do CBERS-4, a divisão é de 50% para cada país. “Aumentou a complexidade dos satélite e a parcela que cabe ao Brasil”, observou Câmara.

Agora, o principal desafio é de pessoal. A montagem do satélite começará em novembro e exigirá a contratação pelo Inpe de 60 funcionários para trabalharem na China pelo período de um ano, em esquema de rodízio. Câmara anunciou na semana passada que deixará o cargo em dezembro, dois anos antes do término de seu mandato. “Estou frustrado porque o Inpe não recebeu do Ministério [da Ciência e Tecnologia] os recursos humanos necessários para renovar sua equipe”, disse em Pequim.

Em sua avaliação, um eventual novo atraso no cronograma colocará em xeque não só o programa, mas a capacidade do Brasil de cumprir seus acordos internacionais. Integrante da missão que negociou o acordo de satélites com os chineses há 25 anos, Raupp observou que é “incomparável” a velocidade de desenvolvimento dos programas espaciais dos dois países. “A China vai lançar 19 satélites entre 2011 a 2015 e o Brasil, 3”, exemplificou, citando números que incluem os dois satélites conjuntos previstos para o período.

Apesar do atraso no CBERS-3, Brasil e China decidiram ampliar sua cooperação na área espacial, com a utilização da base de Alcântara, no Maranhão, para o monitoramento da nave chinesa Shenzhou-8 quando ela passar sobre a região, provavelmente no fim de outubro. “Alcântara tem uma posição estratégica e vai fornecer dados que permitirão monitorar o acoplamento da Shenzhou 8 com o laboratório espacial Tiangong 1”, disse Li Lijie, do Centro de Lançamento, Monitoramento e Controle de Satélites da China.

A base brasileira será ligada à chinesa na cidade de Xian por uma VPN (Virtual Private Network), conexão de internet rápida e segura, que permitirá a troca de informações e a solução de problemas em tempo real, ressaltou Li. A comunicação servirá para o acompanhamento não só do Shenzhou 8, mas dos satélites lançados pelos dois países. Brasil e China pretendem ainda elaborar um plano espacial de dez anos e identificar novos projetos de cooperação no setor. Se depender do Brasil, o programa incluirá o lançamento de mais três satélites até 2020, além dos dois já previstos.

Tudo o que sabemos sobre:

BrasilCBERSChinaSatélite

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.