Autor do massacre de Charleston fez manifesto em defesa da supremacia branca

Cláudia Trevisan

20 de junho de 2015 | 14h41

Antes de matar nove pessoas a tiros em uma histórica igreja de Charleston, Dylann Roof escreveu um manifesto racista no qual defendeu a superioridade branca e seu domínio sobre os negros, judeus, hispânicos e imigrantes que vivem na Europa. Em uma espécie de plano de ação global pela supremacia racial, ele disse estar disposto a se aliar aos moradores do nordeste da Ásia e a “salvar” alguns latinos, inclusive no Brasil.

“Eu escolhi Charleston porque é a mais histórica cidade do meu Estado e em certo momento teve a mais elevada relação de negros para brancos no país. Nós não temos skinheads, nenhuma KKK (Ku Klux Klan) real, ninguém fazendo nada além de falar na internet. Bem, alguém tem de ter a coragem para levar isso ao mundo real e eu imagino que tenho de ser eu”, diz o manifesto. O domínio do site foi registrado em fevereiro em nome de Roof, segundo o New York Times.

O atirador sustenta que a segregação racial não foi imposta nos EUA para oprimir os negros, mas sim para proteger os brancos. “Não só nos protegeu de interagir com eles e de ser fisicamente feridos por eles, mas nos protegeu de nos rebaixar ao seu nível”, escreveu. “A integração (racial) não fez nada além de levar os brancos ao mesmo patamar de animais brutais.”

O homem que matou a tiros nove pessoas, entre as quais uma mulher de 87 anos, também discorre sobre a suposta violência dos afro-americanos. “Negros têm QIs mais baixos, menos controle de seus impulsos e níveis mais elevados de testosterona em geral. Essas três coisas são uma receita para comportamento violento.”

Chamado de “o último rodesiano”, em referência ao antigo regime segregacionista do país africano, o site traz 60 fotos. Em algumas delas, Roof aparece com uma arma e a bandeira dos confederados do Sul, que se levantaram contra o Norte e a abolição na Guerra Civil (1861-1865). Vista por muitos como um símbolo do período escravocrata, a bandeira está hasteada em frente ao prédio da Assembleia Legislativa em Columbia, capital da Carolina do Sul.

Logo depois do massacre, na quarta-feira, milhares de pessoas passaram a defender na internet a sua retirada de uma área pública. Petição nesse sentido havia conseguido 300 mil adesões até sábado. Em outras imagens, Roof é fotografado queimando e cuspindo na bandeira dos Estados Unidos.

No manifesto, ele faz uma defesa internacional da supremacia branca. “Está longe de ser muito tarde para a América e a Europa. Eu acredito que mesmo que nós representemos apenas 30% da população, nós poderíamos recuperar (o controle) totalmente. Mas de nenhuma maneira podemos esperar mais tempo para tomar ações drásticas.”

Ressaltando que os hispânicos são “um grande problema para a América”, ele observa que uma parte dessa população é branca. “Há uma boa parcela de bom sangue branco que pode ser salvo no Uruguai, na Argentina, no Chile e até mesmo no Brasil.

Quando foi preso, na quinta-feira, Roof disse aos policiais que o interrogaram que sua intenção era iniciar uma “guerra racial”, segundo a CNN.

Na avaliação do atirador, o “problema” em relação aos judeus não é a raça. “Eu acho que se nós pudéssemos destruir a identidade judaica, eles não causariam muitos problemas”, que a maioria desse grupo seria branca.

O Departamento de Justiça investiga o massacre como um crime de ódio e potencial ato terrorista. Roof foi acusado na sexta-feira de nove homicídios e pode ser condenado à pena de morte. Os agentes federais também tentam determinar se ele agiu sozinho ou se houve uma conspiração com outras pessoas, o que agravaria ainda mais a acusação.