Avanços e retrocessos da China

Cláudia Trevisan

10 de outubro de 2010 | 09h50

A maioria dos comentários deixados pelos leitores em posts sobre a China tem caráter extremo e professa o amor ou o ódio incondicional ao país. Mas a realidade chinesa é multifacetada e merece uma abordagem muito mais ponderada.

A transformação que o país viveu nos últimos 30 anos não tem paralelo na história da humanidade por sua rapidez e abrangência. O país empobrecido e isolado do mundo se integrou à globalização e desenhou uma estratégia de desenvolvimento de longo prazo, o que garantiu um invejável crescimento médio anual de 9,6%. Graças a ele, 500 milhões de pessoas deixaram de viver abaixo da linha da pobreza e a China se tornou a segunda maior economia do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos.

O espaço da liberdade individual também se ampliou, com a redução da interferência do Estado na vida privada dos cidadãos. Há menos de 20 anos, os chineses tinham que ter autorização da empresa estatal onde trabalhavam para viajar, casar ou se divorciar. Hoje, podem viajar sem restrição, dentro e fora do país, e gerenciar sua vida amorosa da maneira que considerarem mais adequada. A tolerância ao debate de ideias e opiniões também se ampliou.

Mas o país avançou muito pouco do ponto de vista de instituições que garantam liberdades civis aos chineses. O Partido Comunista continua a estar acima da lei e não existem canais pelos quais os cidadãos possam defender o que vêem como seus direitos. Há uma brutal desconfiança da população em relação aos ocupantes de cargos públicos nas províncias e nos municípios, vistos como corruptos e mancomunados com o poder econômico. Não por acaso, há inúmeros casos de ataques de fúria da população contra edifícios e funcionários do Estado ou do Partido. Diante da inexistência de canais institucionais para a solução de conflitos e proteção de direitos individuais, a violência é vista como a única opção disponível.

O mais preocupante é que a repressão e o autoritarismo do Partido se acentuaram nos últimos três anos e a condenação do dissidente Liu Xiaobo a 11 anos de prisão em 2009 é um dos reflexos desse movimento. Vencedor do Prêmio Nobel da Paz anunciado na sexta-feira, Liu pedia justamente a criação de um Estado de Direito, no qual nenhuma instituição esteja acima da lei.

Liu está longe de ser o único crítico do regime a estar na prisão. Há centenas de outros, condenados por “juízes” sujeitos ao Partido em julgamentos que não obedecem aos requisitos mínimos do devido processo legal.

A maioria esmagadora da China não conhece os nomes desses ativistas, incluindo o de Liu Xiaobo, porque a censura barra a menção a eles na imprensa do país. E nos últimos anos, o controle sobre a informação se acentuou em vez de arrefecer.

Essa realidade não pode ser ignorada, mesmo pelos que admiram a transformação experimentada pelo país nas últimas três décadas. E jogar luz sobre esses problemas não faz parte de nenhuma conspiração internacional mirabolante em favor do imperialismo ianque.

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