Avatar na China

Cláudia Trevisan

15 de fevereiro de 2010 | 05h30

Visto como uma grande diversão pela maioria dos mortais, o filme “Avatar” ganhou surpreendentes contornos políticos na China, onde os navis que habitam o planeta Pandora se transformaram em heróis das pessoas que resistem às ordens de descocupar suas casas para dar lugar a empreendimentos imobiliários ou industriais. Esses grupos são chamados de “dingzihu”, o que pode ser traduzido como “famílias-prego”, em razão de sua recusa em sair de onde estão. Em tese, elas só seriam obrigadas a fazer isso contra sua vontade para abrir espaço a projetos de caráter público, como pontes e estradas. Mas na realidade, muitas são forçadas a abandonar suas propriedades para permitir a construção de empreendimentos privados. Os que se recusam, vêem sua vida transformada em um inferno. Quase sempre os empreendedores têm apoio das autoridades locais, que cortam o fornecimento de água e luz dos “dingzihu”. Os navis chineses também enfrentam agressões de grupos armados contratados pelos responsáveis pelas obras.

Ao derrotar os humanos invasores de Pandora, os navis passaram a ser vistos como fonte de inspiração para essas pessoas. “Avatar é um exemplo de sucesso de ‘dingzihu’ que lutam contra a violenta destruição de suas casas”, escreveu um internauta em um fórum de discussão sobre o assunto que recebeu milhares de comentários.

O fenômeno das famílias obrigadas a dar lugar a construções é comum em toda a China, país que se transformou em um verdadeiro canteiro de obras nos últimos 30 anos. A indenização paga pelo imóvel é quase sempre baixa e insuficiente para a compra de outro que seja equivalente. No caso de projetos de infraestrutura é mais difícil resistir à determinação do Estado, já que se trata de obras de interesse público. A hidrelétrica de Três Gargantas, por exemplo, obrigou a remoção de 1,5 milhão de moradores da área onde a represa da usina foi construída. E nem sempre a resistência dos “dingzihu” é motivada apenas por questões econômicas. Várioas moradores dos antigos hugonts de Pequim também se recusam a deixar o lugar onde gerações de suas famílias viveram.

Outro aspecto político menos óbvio de “Avatar” é o fato de o filme ter se tornado o campeão de bilheteria da história do país (como em todo o mundo), no momentoem que o Partido Comunista se empenha em ter campeões nacionais de bilheteria. No ano passado, o governo chinês celebrou o fato de o patriótico “A Grande Fundação da Nação” ter superado “Titanic” e assumido o posto de filme mais visto na história da China. O feito contou com uma enorme ajuda da propaganda oficial, que lançou o filme para marcar a celebração dos 60 anos da Revolução Comunista. “A Grande Fundação da Nação” retrada o período de 1945 a 1949, quando houve a guerra civil entre nacionalistas e comunistas, e apresenta um retrato quase angelical de Mao Tsé-tung. Além de não contar com a propaganda oficial, “Avatar” teve que ser retirado das salas de exibição em 2D para dar lugar a outra obra promovida pelo Partido Comunista, “Confúcio”, que foi um fracasso de público e crítica. O patriotismo dos chineses não resistiu ao apelo de Pandora.

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