Basquete, Hong Kong e o alcance global da censura chinesa

A NBA é um dos mais visíveis exemplos da interdependência entre Estados Unidos e China, as duas maiores economias do mundo, envolvidas em uma disputa feroz pela supremacia tecnológica global. Também é uma mostra de como o eventual divórcio entre ambas seria traumático

Cláudia Trevisan

09 de outubro de 2019 | 23h47

A China não se satisfaz mais em controlar com mão de ferro o conteúdo que circula na internet, mídias sociais e veículos de imprensa dentro de suas fronteiras. Cada vez mais, o Partido Comunista tenta moldar a narrativa do mundo exterior sobre o país, usando o peso da segunda maior economia do mundo para obrigar empresas e entidades estrangeiras a se alinharem à interpretação oficial da realidade emanada de Pequim. O mais recente embate foi provocado por um tuite de sete palavras do diretor executivo de um dos times da maior liga de basquete do mundo, a NBA: “Lute pela liberdade. Fique com Hong Kong”.

A mensagem de apoio à ilha que registra os maiores protestos da história contra a República Popular da China ultrapassou a linha do tolerável pelo governo de Xi Jinping, que impôs perdas econômicas imediatas à NBA em uma tentativa de submeter a liga americana ao discurso do Partido Comunista. A ofensiva surtiu efeito: Daryl Morey apagou o tuite vetado pelos chineses e postou um outro, no qual dizia que não tinha a intenção de ofender os fãs chineses de seu time, o Rockets. Adam Silver, o principal executivo da liga, divulgou uma declaração em chinês em que praticava um ato de contrição mais extremo que o revelado em suas manifestações em inglês: o texto dizia que a NBA estava “extremamente desapontada” pelos comentários “impróprios” de Morey, que teriam “ferido de maneira severa os sentimentos dos fãs chineses”.

A subserviência de Silver foi interpretada nos EUA como uma afronta à Primeira Emenda da Constituição, que garante a liberdade de expressão, de manifestação e de imprensa. Sob ataque, Silver divulgou um novo comunicado, no qual disse que a NBA não pediria desculpas. “É inevitável que pessoas ao redor do mundo – incluindo da América e da China- tenham diferentes pontos de vista sobre diferentes questões. Não é o papel da NBA julgar essas diferenças”, disse a declaração. “No entanto, a NBA não se colocará em uma posição de regular o que os jogadores, empregados e donos de times dizem ou não dizem sobre essas questões. Nós simplesmente não podemos funcionar dessa maneira.”

A NBA é um dos mais visíveis exemplos da interdependência entre Estados Unidos e China, as duas maiores economias do mundo, envolvidas em uma disputa feroz pela supremacia tecnológica global. Também é uma mostra de como o eventual divórcio entre ambas seria traumático. Com uma legião estimada em 500 milhões de fãs, a China é o maior mercado mundial para a NBA. Um dos mais populares times é justamente o Rockets, que contratou o chinês Yao Ming em 2002. Segundo a revista Forbes, a liga de basquete tem contratos anuais de US$ 4 bilhões (R$ 16,4 bilhões) no país asiático.

As diferenças que a NBA disse respeitar não são toleradas pelo governo de Pequim, que exige a uniformização do discurso global sobre a China nos termos ditados pelo Partido Comunista. Dentro da própria liga, há defensores explícitos do regime chinês. Co-fundador da gigante chinesa Alibaba e dono do Brooklyn Nets, um dos times da NBA, Joseph Tsai disse que o apoio aos protestos de Hong Kong é um tema tabu na China. “Uma coisa que é terrivelmente mal-entendida e muitas vezes ignorada pela imprensa ocidental e aqueles críticos à China, é que o 1,4 bilhão de cidadãos chineses estão unidos quando o assunto é a integridade territorial da China e a soberania do país sobre a terra natal. Essa é uma questão não-negociável”, afirmou Tsai, que acusa os manifestantes de serem separatistas.

Os protestos de milhões de pessoas nas ruas de Hong Kong nos últimos cinco meses são um indício de que grande parte dos 7,4 milhões de moradores da ilha não concorda com Tsai.

Quando a ex-colônia britânica foi devolvida à China, em 1997, seus habitantes receberam a promessa de que seus direitos e liberdades civis seriam mantidos por 50 anos. A origem dos protestos é a percepção de que essas garantias estão sob ameaça muito antes do fim desse prazo, no ano 2046. Entre elas, está a liberdade de expressão, tema central do choque entre a NBA e o Partido Comunista chinês.

 

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