Boom de investimento pode levar a crise de dívida na China

Cláudia Trevisan

29 de junho de 2011 | 07h57

Os governos locais chineses encerraram 2010 com uma dívida de US$ 1,65 trilhão e alguns deles podem não conseguir pagar o que devem, de acordo com relatório do Escritório Nacional de Auditoria divulgado na segunda-feira. Para alguns analistas, a situação é mais grave que a revelada nos dados oficiais, que coloca o débito em um patamar equivalente a 25% do PIB do país _percentual que não inclui o endividamento em âmbito nacional.

Essa foi a primeira auditoria que as autoridades de Pequim realizaram nos débitos dos governos locais, que se transformaram em um problema com a febre de investimentos que tomou conta do país depois do pacote de estímulo de US$ 586 bilhões adotado em novembro de 2008 em resposta à crise internacional.

Para financiar os milhares de projetos que pipocaram ao redor da China, muitas províncias e cidades escaparam das restrições oficiais de endividamento com a criação de “veículos especiais” _entidades que contraíram empréstimos junto aos bancos públicos e os aplicaram na construção de obras que nem sempre tinham viabilidade econômica.
“A administração de algumas das plataformas de financiamento dos governos locais é irregular e sua lucratividade e capacidade de pagar seus débitos é bastante frágil”, declarou o auditor nacional, Liu Jiayi, ao apresentar o relatório ao Congresso Nacional do Povo.

A cifra de US$ 1,65 trilhão é inferior à estimativa dos débitos locais feita pelo Banco do Povo da China _o banco central do país_ no início deste mês, que colocou a cifra em US$ 2,2 trilhões, o equivalente a 30% do estoque de empréstimos em yuans concedidos pelo sistema financeiro.
O eventual calote pelos governos locais terá impacto direto sobre a saúde dos grandes bancos públicos chineses, que foram a principal fonte de recursos para sustentar o boom de investimentos experimentado pelo país nos últimos dois anos. Em 2009, o sistema financeiro chinês concedeu empréstimos no valor de US$ 1,4 trilhão, o dobro do registrado no ano anterior e o equivalente a 30% do PIB naquele período. A cifra diminuiu para US$ 1,2 trilhão em 2010, mas ainda ficou bem acima do patamar de 2008.

Proibidos de emprestar diretamente dos bancos, os governo locais criaram cerca de 10 mil veículos especiais até o fim do ano passado, segundo relatório do banco central. Essas instituições contornaram as restrições e abocanharam parte da montanha de crédito que inundou a economia chinesa e garantiu taxas de crescimento próximas de 10% ao ano.

No livro “Capitalismo Vermelho – O frágil alicerce financeiro da extraordinária ascensão da China” (tradução livre), os economistas Carl Walter e Fraser Howie sustentam que a explosão de empréstimos para estimular o crescimento da economia chinesa em 2009 e 2010 vai inevitavelmente levar ao surgimento de créditos podres, que exigirão uma nova onda de capitalização dos bancos dentro de dois a três anos.

O risco de que os bancos não consigam recuperar parcela significativa do que emprestaram levou a agência de classificação de risco Fitch a rebaixar de “estável” para “negativo” a perspectiva da nota AA- que dá às dívidas de longo prazo em moeda local. Anunciada em abril, a decisão poderá levar ao primeiro rebaixamento do rating chinês em 12 anos. Na avaliação da Fitch, existe “grande possibilidade de significativa deterioração” no balanço dos bancos nos próximos três anos.

Victor Shih, professor da Universidade Northwestern de Chicago, sustenta que a situação das finanças públicas na China é bem mais grave que a apresentada no relatório dos auditores. Se forem somados as dívidas dos governos nacionais e locais, das estatais e de outras agências controladas pelo Estado, o valor se aproxima de 70% do PIB.

O economista-chefe do HSBC para a China, Qu Hongbin, acredita que a situação tende a se agravar em razão do descompasso entre o vencimento das dívidas e a geração de caixa pelas obras construídas nos últimos dois anos. Em sua opinião, se não houver uma reestruturação desses passivos, os bancos enfrentarão o aumento do calote nos próximos anos, com a consequente elevação do volume de créditos irrecuperáveis em seus balanços.

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