Brasil, o país que não celebra seus heróis

Cláudia Trevisan

02 de junho de 2014 | 10h01

Não sei se é o complexo de vira-latas diagnosticado por Nelson Rodrigues ou um certo cinismo coletivo em relação a boas ações, mas o fato é que o Brasil celebra pouco os seus heróis. No sábado, conheci um deles lendo o Washington Post, que trouxe obituário de meia página de Ciro de Quadros, o epidemiologista brasileiro que ajudou a erradicar a varíola, a pólio e o sarampo no Hemisfério Ocidental e morreu na quarta-feira, aos 74 anos. “Poucas pessoas nos últimos 50 anos fizeram mais que o dr. de Quadros para prevenir a propagação de doenças infecciosas, particularmente nas Américas”, escreveu o jornal, ressaltando que seu trabalho salvou a vida de milhões de pessoas.

Sob qualquer ângulo, Ciro de Quadros teve uma vida digna de ser ensinada nas escolas, imortalizada em estátuas e apresentada como modelo inspirador para futuras gerações. Mas poucos no Brasil conhecem o médico que começou a combater varíola na Amazônia nos 60 e teve influência crucial sobre a saúde pública no Hemisfério Ocidental.

A homenagem a nossos cidadãos que de alguma forma fazem do mundo um lugar melhor é um antídoto necessário aos inúmeros heróis fúteis criados pela fama instantânea dos reality shows e a indústria de celebridades. É uma maneira de construir a identidade nacional e de mostrar que a sociedade aprecia e respeita ações que vão muito além de ser rico ou frequentar a ilha de Caras.

Os Estados Unidos são o berço da máquina do entretenimento e do culto a celebridades, mas o país também se dedica como poucos ao reconhecimento dos que realizam gestos que merecem ser festejados. E isso se reflete na maneira como a imprensa narra essas histórias.

Faz quase 10 anos, mas eu me lembro o impacto que me causou a reportagem do New York Times sobre uma lavadeira negra que doou US$ 150 mil à University of Southern Mississipi, que foram destinados à concessão de bolsas de estudos a estudantes negros. O primeiro parágrafo do texto descrevia de maneira magistral o ofício de Oseola McCarty: “Dia após dia, na maior parte de seus 87 anos, ela pegou trouxas de roupas sujas e as deixou limpas e arrumadas para festas que nunca frequentou, casamentos para os quais nunca foi convidada, formaturas que nunca viu”.

Minha memória pode me trair, mas estou quase certa que a reportagem ganhou uma menção na primeira página do jornal, o que revela a responsabilidade que nós da imprensa também temos na narrativa coletiva sobre nossos heróis. Mas ela depende de muitos outros atores. Depois de seu gesto, Oseola recebeu cerca de 300 homenagens, incluindo do então presidente, Bill Clinton, e do Congresso americano. Em 1996, ela foi uma das pessoas que carregaram a Tocha Olímpica antes dos Jogos de Atlanta. No mesmo ano, ela apertou o botão para derrubar a bola que marca o Ano Novo na Times Square, em Nova York.

Oseola havia abandonado a escola aos 11 anos e lamentava não ter podido voltar a estudar. Com sua doação, ela deu essa oportunidade a outros negros pobres e inspirou pessoas com muito mais dinheiro do que ela a fazerem gestos semelhantes.

O brasileiro Ciro de Quadros começou sua batalha contra a varíola na Amazônia, onde desenvolveu uma estratégica de vacinação que levou à eliminação da doença em várias regiões do Brasil. Em seguida, foi convidado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) a repetir a experiência na Etiópia. “Você podia andar naquelas montanhas durante dias e dias para encontrar um caso de varíola, mas não conseguia vacinar ninguém, porque ninguém queria ser vacinado”, disse Ciro em 2001 à publicação médica britânica Lancet, de acordo com relato do Washington Post. “Eles atiravam pedras, eles soltavam os cachorros em cima de você.” Para vencer a desconfiança dos etíopes, o brasileiro contratou enfermeiras e profissionais de saúde locais e conseguiu erradicar a doença no país.

O epidemiologista passou metade de sua vida em Washington, para onde se mudou no fim dos anos 70, quando foi contratado pela Organização Panamericana de Saúde, ligada à OMS. Em 2002, ele saiu da entidade para assumir o cargo de vice-presidente executivo do Sabin Vaccine Institute, onde atuou até a sua morte. “Ciro entra agora para o panteão de líderes globais da saúde, cujo trabalho reflete o legado comum de salvar milhões de vidas do sofrimento inútil por meio da promoção de avanços nas práticas de saúde”, escreveu o presidente do instituto, Morton Hyman, em mensagem no site da organização.

Como a vida de Ciro de Quadros demonstra, não nos faltam heróis, mas sim a disposição de festejá-los.