‘Brincar de policial’ acaba em morte de negro desarmado nos EUA

Cláudia Trevisan

22 de abril de 2015 | 11h32

Robert Bates é um milionário de 73 anos que gosta de brincar de policial. Literalmente. Graças a uma das esquisitices da excepcionalismo americano, ele era voluntário desde 2007 no Departamento de Polícia de Tulsa, Oklahoma, para o qual doou seis veículos e US$ 5.000 em câmeras de vigilância. Executivo de uma empresa de seguros, ele também contribuiu com US$ 2.500 para a campanha de reeleição de seu amigo, o xerife Stanley Glanz, e pagou parte das despesas do oficial em um cruzeiro pelas Bahamas. Em outra excepcionalidade, os EUA são talvez o único país do mundo no qual existe eleição para xerife.

No dia 2 de abril, Bates atuava como voluntário ao lado de policiais em uma operação para prender Eric Harris, 44, que realizava a venda ilegal de arma a um oficial disfarçado de comprador. Quando percebeu que havia caído em uma armadilha, Harris correu, deixando para trás sua mochila e a arma. No momento em que ele foi agarrado por um policial, Bates sacou sua arma e atirou.

Nesta terça-feira, ele se declarou inocente da acusação de homicídio, pagou US$ 25 mil de fiança e informou o juiz responsável pelo caso que viajará de férias para Bahamas na próxima semana. Bates afirmou que não tinha intenção de atirar em Harris. Seu objetivo era usar o taser, a arma que imobiliza suspeitos com choques elétricos. Na correria, acabou se enganando e sacou a arma de verdade.

Sua presença na operação foi criticada pela família da vítima e gerou uma onda de protestos na internet. No vídeo da cena, divulgado na semana passada, Bates diz imediatamente: “Eu atirei nele, eu sinto muito”. Ainda vivo, Harris gritou “você atirou em mim!”. Minutos depois, ele entrou para as estatísticas de negros desarmados mortos em ações policiais.

O xerife Glanz defendeu o amigo e disse a operação seguiu os procedimentos do departamento. O policial também negou as acusações, feitas em reportagem do Tulsa World, de que os documentos sobre as horas de treinamento de Bates foram forjados.

Em nota, a família de Harris também criticou o fato de Bates ter usado uma arma particular e não uma pertencente ao escritório do xerife de Tulsa (TCSO, na sigla em inglês).

“Nós não acreditamos que é razoável para um executivo de seguros de 73 anos estar envolvido em uma perigosa operação secreta. Nós não acreditamos que é razoável que Bob Bates estivesse carregando uma arma não registrada no TCSO. Nós não acreditamos que é razoável –ou responsável- para o TSCO aceitar presentes de um cidadão rico disposto a ‘pagar para brincar’ de policial”, disse nota divulgada pela família de Harris.