China acusa EUA de irresponsabilidade

Cláudia Trevisan

09 de novembro de 2010 | 06h02

Os Estados Unidos ignoraram sua responsabilidade de emissor da moeda usada como reserva de valor em todo o mundo ao aprovar uma expansão monetária de US$ 600 bilhões na semana passada, afirmou ontem o vice-ministro de Finanças da China, Zhu Guangyao, para quem a medida vai provocar um “choque” na economia global.

Em entrevista sobre a reunião do G-20 que será realizada em Seul no fim desta semana, Zhu afirmou que a injeção de recursos na economia norte-americana vai provocar “aguda volatilidade” nos países emergentes, que serão inundados por capital especulativo em busca de ganhos de curto prazo, atraídos pelas taxas de juros mais altas do que as praticadas nos Estados Unidos.

Segundo ele, a situação atual da é bastante distinta da existente no início da crise, quando o governo norte-americano injetou US$ 1,75 trilhão para estimular uma economia que precisava desesperadamente de liquidez. “Agora não há falta de capital, há falta de confiança”, ressaltou Zhu.

Suas declarações contrastam com a posição manifestada no fim de semana por outro vice-ministro de Finanças da China, Wang Jun, para quem a decisão do Fed será positiva para o mundo. “A política de expansão monetária quantitativa que tem por objetivo estimular a economia dos Estados Unidos vai ajudar a reavivar tremendamente a economia global”, disse Wang.

Os países emergentes sustentam que o aumento no fluxo de capitais gerado pela expansão monetária norte-americana vai pressionar a cotação de suas moedas, que irão se apreciar em relação ao dólar, com impacto negativo sobre a competitividade de suas exportações.

O temor é que as nações embarquem em uma guerra cambial, com desvalorizações competitivas para ampliar suas exportações, em uma corrida que pode ter efeitos devastadores sobre o comércio global. A elevação no movimento de capitais também poderá levar ao surgimento de bolhas nos mercados dos países emergentes, com a alta artificial de preços de ativos, que poderiam cair a qualquer momento com a reversão desse fluxo.

A expansão monetária nos Estados Unidos e o risco de uma guerra cambial estarão no topo da agenda dos líderes do G-20, grupo que reúne as maiores economias desenvolvidas e emergentes. A agressiva política de expansão monetária norte-americana acabou colocando em segundo plano o patamar depreciado do yuan chinês e as intervenções de outros países asiáticos para evitar a valorização de suas moedas, questões que estiveram na origem do temor em relação a uma guerra cambial de proporções globais.

O encontro ocorre no momento em que os desequilíbrios que levaram à crise global voltam a se agravar, com o aumento do superávit da China e do déficit dos Estados Unidos nas transações de ambos os países com o restante do mundo. O vice-ministro das Finanças Zhu Guangyao reafirmou a posição de seu país contrária à proposta de fixar um teto de 4% para os desequilíbrios em conta corrente apresentada pelo secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Timothy Geithner, na reunião preparatória para a cúpula do G-20 realizada no mês passado na Coreia do Sul.

Na avaliação de Zhu, a correção dos desequilíbrios depende de mudanças estruturais, que ainda vão demandar muito tempo para estarem concluídas.

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