China celebra sua emergência global com a Expo Xangai

China celebra sua emergência global com a Expo Xangai

Cláudia Trevisan

30 de abril de 2010 | 12h04

Quando Londres realizou a primeira Exposição Mundial da história, em 1851, o Império Britânico era a grande potência global, que em 1842 havia imposto ao decadente Império Chinês a primeira de uma sucessão de derrotas humilhantes que levaram à colonização do país asiático pelo Ocidente.

O centro e maior símbolo da ocupação estrangeira na China era Xangai, a cidade que a partir de amanhã vai sediar a mais extravagante Exposição Mundial já realizada no planeta, para a qual são esperados pelo menos 70 milhões de visitantes, um número recorde. A cerimônia de aberutra foi realizada hoje à noite (horário da China) com um megaespetáculo de fogos de artifício, luzes e imagens projetadas na maior tela digital do mundo, às margens do rio Huanpu, que corta Xangai.

Fogos de artifício iluminam o céu

Fogos de artifício iluminam o céu

Sob o título “A Grande Exposição dos Trabalhos da Indústria de Todos os Continentes”, o evento de 1851 serviu para promover os avanços tecnológicos da Revolução Industrial e celebrar o poder da Inglaterra vitoriana. Mais de um século e meio depois, a Exposição Mundial servirá para marcar a espetacular emergência da China, que neste ano deverá assumir o posto de segunda maior economia do planeta, atrás apenas dos Estados Unidos.

Esse é o segundo megaevento internacional sediado pela China em menos de dois anos. O primeiro foi a Olimpíada de 2008, uma espécie de debut do país no mundo. Como os Jogos de Pequim, a Expo 2010 será um imenso exercício de relações públicas da China, tanto para o público externo quanto para o interno.

O moderno pavilhão chinês da exposição

O moderno pavilhão chinês da exposição

O evento também terá a função de projetar Xangai como uma metrópole internacional e a escolhida pelas autoridades chinesas como candidata ao posto de principal centro financeiro do mundo _meta ainda distante.

As estimativas de quanto a China gastou na realização do evento variam, mas chegam a no mínimo US$ 46 bilhões se forem incluídas todas as obras de infraestrutura realizadas nos últimos oito anos, desde que a cidade foi eleita para sediar o evento. A estimativa mais alta atinge US$ 58 bilhões. As duas cifras superam os US$ 42 bilhões que Pequim investiu na Olimpíada de 2008, a mais cara da história. Xangai inaugurou 210 km de linhas de metrô desde 2008, o que elevou a extensão total da malha a 420 km, a maior do mundo. Também ampliou seu aeroporto e construiu novas ruas, estradas, pontes e viadutos. A área da Exposição Mundial tem 5,38 km quadrados, outro recorde, e sua construção forçou a retirada do local de 18 mil famílias.

Bandeiras das nações que participam da Expo Xangai

Bandeiras das nações que participam da Expo Xangai

Cidade com a maior população da China _18 milhões de habitantes_ Xangai é a sede da Bolsa de Valores, dos bancos e da maior parte dos representantes de multinacionais que atuam no país. O setor financeiro se concentra em Pudong, o bairro futurista de arranha-céus e fachadas luminosas que não existia até 1990. Na outra margem está o histórico Bund, que era o endereço da concessão britânica no período de colonização, que durou até o princípio do século XX.

Nos meses que antecederam a abertura da Expo, Xangai foi mergulhada em obras de restauração e remodelação, enquanto seus habitantes foram alvo de campanhas “educativas” para dar uma boa impressão aos visitantes. Entre outras coisas, foram orientados a respeitar filas, não escarrar e não andar de pijamas pelas ruas _hábito comum na China. As autoridades também trataram de isolar os dissidentes do regime, colocando-os em prisão domiciliar. Além disso, prenderam 6.000 pessoas acusadas de prostituição e de pequenos crimes, como furtos.

Com 192 países e 50 instituições internacionais e empresas, a Expo 2010 terá o maior número de participantes da história, mas o feito foi obtido em parte pela decisão do governo chinês de pagar pela construção dos pavilhões de nações pobres. Todo o edifício que abrigará os participantes da África, por exemplo, foi bancado pela China. Os países com pavilhões próprios pagaram pela sua construção, incluindo o Brasil, que destinou US$ 50 milhões à sua participação na Exposição.

O pavilhão brasileiro na megafeira

O pavilhão brasileiro na megafeira

À diferença da Olimpíada, a cerimônia de abertura da Expo 2010 teve a presença de poucos governantes estrangeiros, a pedido da própria China. O governo de Pequim sugeriu que eles viajem a Xangai no dia que será dedicado a seu respectivo país nos seis meses de duração do evento. O dia do Brasil será 3 de junho, mas ainda não está confirmada a presença do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

A imagem de uma potência emergente responsável será explorada pelo tema do evento, “Cidade Melhor, Vida Melhor”, que vai permitir a discussão de questões como desenvolvimento sustentável, energia limpa, urbanização e qualidade de vida. Maior emissor de gases que provocam efeito estufa do mundo, a China é pressionada para adotar metas que reduzam o impacto de seu feroz crescimento sobre o meio ambiente. “A realização de uma Exposição bem sucedida vai mostrar o poder e a responsabilidade da China”, diz Sun Yuanxin, da Universidade de Finanças e Economia de Xangai.

Veja os blogs dos correspondentes do Estadão em

Nova York, Gustavo Chacra – http://blogs.estadao.com.br/gustavo-chacra/

Washington, Patrícia Campos Mello – http://blogs.estadao.com.br/patricia-campos-mello/

Buenos Aires, Ariel Palácios – http://blogs.estadao.com.br/patricia-campos-mello/

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