China comunista tem maior número de bilionários depois dos EUA

Cláudia Trevisan

01 Julho 2011 | 06h39

Criado sob a égide do igualitarismo, o Partido Comunista da China chega hoje aos 90 anos no comando de uma sociedade na qual a distância entre ricos e pobres é cada vez maior e os antigos inimigos da classe operária _os empresários_ estão entre os principais beneficiários do espetacular crescimento dos últimos 30 anos.

Enriquecer é a nova ideologia dos chineses, que mostram pouco entusiasmo pela onda propagandística que inundou o país de filmes, músicas e livros inspirados na Revolução de 1949. A maioria da população está mais preocupada com a inflação e o exorbitante preço dos imóveis do que com as campanhas inspiradas na herança maoísta.

“Muitos se importam com o Partido, seja porque não há outra alternativa, seja porque ele serviu bem à China, mas poucos amam o Partido”, disse ao Estado a escritora Lijia Zhang, autora de “A Garota da Fábrica de Mísseis”, no qual relata sua experiência de dez anos como operária em um estatal chinesa nos anos 80.

A China comunista tem o maior número de bilionários do mundo depois dos Estados Unidos e seus endinheirados transformaram o país no segundo maior mercado para produtos de luxo do planeta, atrás apenas do Japão.
Com 80 milhões de filiados, o Partido também deu origem a uma elite que controla as gigantescas estatais chinesas e dirige negócios lucrativos. “Os filhos da maioria dos líderes comunistas são empresários extremamente bem sucedidos. O Partido se transformou na nova aristocracia do país”, afirmou o analista político Willy Lam, que há anos acompanha de perto a situação política da China.

Mais do que uma opção ideológica, o ingresso no Partido é visto como o passaporte para bons empregos e conexões com o poder que podem resultar em benefício econômico. Mas a organização não está aberta a todos. “Os membros do Partido são a vanguarda da consciência comunista”, declarou na semana passada o vice-diretor de Organização Wang Qinfeng, fiel à inspiração leninista da instituição.

Segundo ele, 21 milhões de chineses apresentaram requerimento para entrar no Partido no ano passado, mas apenas 3 milhões foram aceitos, depois de um período de avaliação. A prosperidade da “aristocracia vermelha” associada à corrupção generalizada e ao abuso de poder alimenta o ressentimento dos “excluídos”, que se manifesta em um crescente número de protestos em todo o país.

Além disso, há uma quantidade crescente de intelectuais, artistas e advogados que pressionam pela aprovação de reformas democráticas que coloquem fim ao regime de partido único ou ao menos criem mecanismos eficazes de participação popular e fiscalização do poder. O primeiro-ministro Wen Jiabao está longe de defender qualquer mudança que coloque em risco a posição do Partido, mas é visto como um dos mais “progressistas” na cúpula dirigente.

Nesta semana, Wen repetiu sua defesa de reformas políticas em discurso que realizou na Royal Society em Londres. Depois de reconhecer que a China enfrenta corrupção, má-distribuição de renda e violações dos direitos de seus cidadãos, ele declarou que a solução para esses problemas é “avançar firmemente” na reformas políticas e na “construção da democracia socialista sob o império da lei”.

Mas Wen parece ser uma voz isolada no Comitê Permanente do Politburo, o grupo de nove pessoas que manda na China. O Partido não só parece ter abandonado experimentos democráticos como iniciou em fevereiro a maior onda repressiva a seus críticos desde 1989, em resposta à tentativa anônima e frustrada de reproduzir no país movimentos semelhantes aos que derrubaram regimes autoritários no mundo árabe.

Ao mesmo tempo, desencadeou uma avalanche propagandística que nas vésperas do aniversário do Partido inundou os cinemas, TVs e rádios com programação revolucionária. A principal estrela da ofensiva é a superprodução cinematográfica “A Fundação de um Partido”, na qual aparecem todos os atores e atrizes célebres da China e de Hong Kong.

O filme estreou no dia 15 de junho e as autoridades se encarregaram de reduzir a concorrência de filmes que teriam mais apelo junto aos chineses de hoje: os lançamentos de “Transformers 3” , “Cars 2” e “Harry Poter” foram adiados para o fim de julho. E para afastar o risco de um fracasso de público, milhares de ingressos foram comprados por estatais e organismos do governo e distribuídos a seus funcionários.

Mesmo com toda a propaganda, a crítica foi implacável. No website dedicado a cinema verycd.com, o filme ganhou nota 2,3 _a mais baixa desde 2009_ e dos 2.600 internautas que deixaram comentários, 2.500 o classificaram de “lixo”. No site douban.com, popular entre intelectuais, a nota era um pouco melhor, 4,8. Mas isso não foi suficiente para evitar que os censores entrassem em ação e desativassem a função que permitia os usuários do site avaliarem o filme oficial.