China diz adeus a crescimento de 10% ao ano

Cláudia Trevisan

20 de novembro de 2011 | 08h25

Os anos de crescimento chinês na casa dos 10% chegaram ao fim e o país entrará agora em uma fase de mais baixa expansão do PIB e taxas de inflação mais elevadas, na qual aumentarão os desafios para manter a economia nos trilhos, com problemas que vão do envelhecimento da população à necessidade de reformas sobre as quais não há consenso. Em linhas gerais, essa foi a conclusão de painel que reuniu analistas chineses e estrangeiros em Pequim na sexta-feira, durante conferência promovida pela revista britânica The Economist sobre as perspectivas para a China.

“Nós estamos no começo da transição do milagre econômico para um desenvolvimento normal”, afirmou Huang Yiping, economista-chefe para a Ásia do Barclays Capital, para quem o modelo baseado em alto nível de investimentos que prevaleceu nas últimas décadas não é mais sustentável. Patrick Chovanec, professor da Universidade de Tsinghua, também vê uma transformação “fundamental”, mas acredita que ela será mais turbulenta do que a prevista por Huang. “O inverno está chegando”, declarou o norte-americano, que não descarta a possibilidade de contração do PIB por curto período na próxima década, a exemplo do que ocorreu com o Japão nos anos de alta expansão da década de 60.

O crescimento vai desacelerar para o terreno de 7% a 8% na opinião de Arthur Kroeber, diretor da consultoria Dragonomics, que desenha um cenário pessimista para a próxima década em razão de mudanças na estrutura demográfica do país. “Um dos fatores que sustentaram o crescimento chinês foi o grande número de pessoas que trabalhavam em relação às que estavam aposentadas”, observou. Segundo ele, essa relação é de 5 para 1 atualmente. Em 20 anos, será de 2 para 1. “É uma enorme mudança demográfica que ocorrerá de maneira muito rápida.” A oferta de trabalhadores sofrerá um declínio severo, com redução em um terço do número de pessoas na idade de 15 a 24 anos, ressaltou.

Para manter o crescimento elevado, a China terá que fazer reformas que aumentem de maneira “dramática” a produtividade, mas Kroeber não vê sinais de que as autoridades de Pequim estejam dispostas a implementá-las. A perda do ímpeto reformista que marcou os últimos 30 anos do desenvolvimento chinês é um problema apontado com frequência por analistas céticos em relação ao futuro do país. Mesmo os otimistas ligados ao governo manifestam preocupação quando o assunto é o rumo que a China adotará no futuro. “Não há consenso sobre o tipo de economia de mercado moderna que nós aspiramos ser”, disse no mesmo debate Li Daokui, conselheiro do Comitê de Política Monetária do Banco do Povo da China e diretor do Centro para a China na Economia Mundial da Universidade Tsinghua.

O tema também foi discutido em painel sobre a transição de poder para a nova geração de líderes comunistas, prevista para o próximo ano. Jin Canrong, vice-reitor da Escola de Estudos Internacionais da Universidade do Povo, observou que há intensa discussão sobre a necessidade de reformas, mas ausência de acordo sobre o caminho a seguir. “Há 30 anos, havia forte consenso no sentido de que deveríamos ir para o outro lado do rio, para a economia de mercado”, lembrou Jin, em referência à transformação iniciada por Deng Xiaoping no fim dos anos 70. “Sem consenso, não há como irmos em uma direção”, acrescentou o professor, para quem as diferentes facções do Partido Comunista acabarão chegando a uma forma de compromisso.

Entre as reformas econômicas, uma das mais mencionadas é a do setor financeiro, dominado por gigantescos bancos estatais que praticam juros artificialmente baixos ditados pelo governo e canalizam crédito para outras empresas estatais igualmente gigantescas. O setor é um dos principais componentes do que Hu Yiping, do Barclays, chamou de modelo de crescimento subsidiado, que prevaleceu nos últimos 30 anos e beneficiou investidores, produtores e exportadores, em detrimento das famílias e dos consumidores.

Para mudar o sistema financeiro, o governo chinês precisa liberalizar os juros, o que acabaria com o subsídio e permitiria que o capital fosse alocado de maneira mais eficiente. Na opinião de Hu Yiping, esse movimento já começou nas operações de crédito informais que ocorrem fora do sistema bancário, nas quais são cobradas taxas de mercado, e logo se espalhará para o restante do sistema. Mais cético, Chovanec acredita que a reforma não virá rapidamente em razão do volume ainda desconhecido de créditos irrecuperáveis que os bancos acumularam com a explosão de empréstimos fáceis dos últimos três anos. “Os bancos terão de se recuperar antes de haver uma liberalização.”

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