China e Rússia fecham aliança estratégica com venda de gás

Cláudia Trevisan

22 Maio 2014 | 16h31

Pequim e Moscou acabam de assinar um acordo estratégico de US$ 400 bilhões para venda de gás russo para a China por um prazo de 30 anos. Além de garantir uma nova fonte de energia para a segunda maior economia do mundo, o contrato mostra os limites dos esforços americanos de isolar Vladimir Putin depois da anexação da Crimeia, há quase três meses, e reforça os laços entre duas nações que têm interesse em limitar a influência global dos Estados Unidos.

Se o acordo for implementado, a China se tornará o segundo maior importador de gás russo depois da Alemanha. Com a crise na Ucrânia, muitos países europeus começaram a analisar caminhos para reduzir sua dependência energética da Rússia, entre as quais está a importação de Gás Natural Liquefeito dos Estados Unidos –algo que demandaria bilionários investimentos em infraestrutura. Nenhuma opção é rápida ou simples, mas a ameaça a seu principal mercado deve ter funcionado como estímulo para Putin fechar o contrato com a China, cuja negociação se arrastou por dez anos.

A principal divergência era relativa ao preço, que não foi revelado. Do lado chinês, o estímulo foi a necessidade de garantir energia para sustentar seu alto ritmo de crescimento e de aumentar a participação de fontes não-poluentes em sua matriz energética. O uso intensivo do carvão está sufocando grandes cidades chinesas como Pequim, que tem registrado alarmantes índices de partículas poluentes no ar. A meta do governo é aumentar o consumo de gás natural de 170 bilhões de metros cúbicos em 2013 para 420 bilhões de metros cúbicos em 2020.

Mas por trás do cálculo econômico, o acordo tem um profundo significado político. Putin brindou o anúncio em Xangai com o presidente da China, Xi Jinping. “Esse será o maior projeto de construção no mundo nos próximos quatro anos, sem exagero”, declarou o presidente russo. Para que o produto chegue à China, a Rússia terá de construir um gasoduto a partir de campos localizados na Sibéria. A empreitada custará US$ 75 bilhões, dos quais US$ 55 bilhões serão bancados pela Rússia. Não se sabe ainda se a China financiará a obra.

Depois de décadas de desconfianças mútuas sob o comando de Mao Tsé-tung e Deng Xiaoping, a relação entre a China e Rússia começou a melhorar depois do fim da União Soviética, mas ganhou impulso com a chegada de Xi ao poder, no ano passado. O novo presidente chinês escolheu Moscou como destino de sua primeira viagem internacional. E no encontro de Xangai, Xi e Putin assinaram outros 49 acordos nas áreas de comunicação, transporte e energia.

Ambos voltarão a se encontrar no Brasil em julho, durante a reunião de cúpula dos países dos BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), que mais uma vez evidenciará os limites da tentativa americana de isolar Putin.