China eleva ‘linha de corte’ da pobreza

Cláudia Trevisan

01 de dezembro de 2011 | 12h22

O número oficial de pobres na China saltou de 27 milhões para 128 milhões com a decisão do governo de elevar a linha da pobreza na zona rural para um rendimento anual de US$ 361,00, o que equivale a quase US$ 1,00 ao dia. Essas pessoas poderão a partir de agora receber ajuda governamental. Mesmo com a mudança, a estatística de pobres ainda está abaixo da estimativa de organismos internacionais. O Banco Mundial usa o patamar de US$ 1,25 ao dia e calculou em 2009 que havia 254 milhões de chineses com rendimento igual ou inferior a esse valor.

O aumento da desigualdade é um dos principais problemas da China e fonte de crescente tensão social. O país que pregava o igualitarismo nos anos de Mao Tsé-tung hoje possui um índice Gini superior ao dos Estados Unidos, o porta-voz do mundo capitalista. O indicador mede a desigualdade de renda dentro de um país e no ano passado estava em 0,47 na China, pouco acima do 0,45 dos norte-americano. No Brasil, o índice é de 0,56, um dos piores do mundo.

A nova linha da pobreza chinesa vale apenas para os moradores da zona rural, que representam cerca de metade da população do país. Pelo critério anterior, apenas 2,8% dos habitantes do campo eram considerados pobres, percentual inferior ao registrado em países desenvolvidos, disse Wang Sangui, professor da Universidade do Povo da China. Nos Estados Unidos, o percentual oficial de pobres é de 15% da população, em razão de uma “linha de corte” bem mais elevada: rendimento anual de US$ 22.314 para uma família de quatro pessoas, o equivalente a uma renda diária individual de US$ 15,28.

O problema da desigualdade foi agravado neste ano pela alta da inflação, que atingiu em julho 6,5%, o mais alto patamar em três anos. O índice desacelerou desde então, mas ainda ficou em desconfortáveis 5,5% no mês passado. A alta no preço dos alimentos é o principal fator a pressionar o indicador, o que torna a inflação ainda mais aguda para os pobres. No mês de outubro, os alimentos ficaram em média 11,9% mais caros. Em julho, a alta de preços nesse segmento havia sido de 14,8% _só a carne de porco, a mais consumida no país, teve inflação de 57% naquele mês.

A nova “linha de corte” chinesa representa um aumento de 92% em relação ao patamar que estava em vigor desde 2009. O universo dos que poderão receber auxílio do governo vai quase quintuplicar, mas os recursos do fundo de combate à pobreza terão aumento de apenas 21% neste ano, para 27 bilhões de yuans (US$ 4,29 bilhões). Se esse valor fosse integralmente dividido pelos 128 milhões de pobres, cada um receberia US$ 33,50.

No Brasil, a “linha de corte” é R$ 70,00 ao mês, o que representa renda anual de US$ 454,00 e diária de US$ 1,24. Com isso, o número de pobres no país é de 16,27 milhões, o equivalente a 8,5% da população. Na China, o novo universo de pobres representa 9,5% dos 1,34 bilhão de habitantes. O presidente Hu Jintao afirmou na terça-feira que a tendência de aumento da desigualdade será revertida e que todos os chineses terão suas necessidades básicas atendidas até 2020. “O acesso à educação compulsória, assistência médica básica e habitação será garantido.”

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