China, Huawei e o novo momento Sputnik dos Estados Unidos

No ano 2000, os gastos públicos e privados dos EUA em pesquisa e desenvolvimento eram 25 vezes maiores que os realizados por Pequim; em 2017, a proporção era de duas vezes mais: US$ 543 bilhões a US$ 260 bilhões

Cláudia Trevisan

19 de setembro de 2019 | 01h13

Os EUA vivem um momento semelhante ao choque experimentado em 1957 com o lançamento do Sputnik pela então rival União Soviética. A versão contemporânea do primeiro satélite que orbitou a Terra é a tecnologia 5G que promete revolucionar a internet e conectar a rede a inúmeras inovações, entre as quais o carro autônomo. E os comunistas de hoje não são russos, mas chineses.

Há seis décadas, no auge da Guerra Fria, os americanos reagiram com o massivo aumento de investimentos públicos em ciência e tecnologia, que passaram de menos de 1% do PIB em 1957 para quase 2%, em 1964. Cinco anos mais tarde, os EUA se tornariam o primeiro país a enviar uma missão tripulada à Lua.

Se não repetir a mesma estratégia agora, a maior economia do mundo corre o risco de perder a posição de líder global em inovação e tecnologia, o que terá consequências negativas sobre sua supremacia militar. O diagnóstico está em estudo elabora por 20 especialistas ligados aos partidos Republicano e Democrata, reunidos em uma força tarefa organizada pelo Council on Foreign Relations(CFR), uma das principais instituições de pesquisa sobre a política externa dos EUA.

O investimento público do país em pesquisa e desenvolvimento caíram do pico de 1,86% em 1964 para 0,66% em 2016. O setor privado aumentou seus gastos no setor de maneira expressiva, mas isso não foi suficiente para garantir a manutenção da liderança tecnológica americana. “Apenas o governo pode realizar o tipo de investimento em ciência básica que produz descobrimentos; esses investimentos são muito grandes e arriscados para serem realizados por uma única entidade privada”, diz o estudo do CFR, divulgado na quarta-feira, 18 de setembro.

A China tem aumentado de maneira agressiva os recursos destinados à pesquisa e desenvolvimento. No ano 2000, os gastos dos EUA -públicos e privados- eram 25 vezes maiores que os realizados por Pequim. Em 2017, a proporção era de duas vezes mais: US$ 543 bilhões a US$ 260 bilhões. Pequim lidera a corrida pelo domínio da tecnologia 5G, uma das áreas prioritárias identificadas no estudo.

A Huawei, maior fabricante de equipamentos de telecomunicações do mundo, está em primeiro lugar entre as companhias que registraram patentes relacionadas à nova tecnologia. A empresa anunciou ter fechado 50 contratos ao redor do mundo para fornecimento de equipamentos para a nova geração da internet, número superior ao de suas competidoras mais próximas, Nokia (45 contratos) e Ericsson (24).

O estudo lembra que a supremacia tecnológica dos Estados Unidos depois da Segunda Guerra Mundial foi acompanhada de seu predomínio  militar e econômico -ou vice-versa. Várias inovações desenvolvidas na área de defesa acabaram por ter aplicação comercial. Algumas delas se transformaram em elementos indispensáveis do nosso quotidiano, como a internet e o GPS.

Além do 5G, no qual têm clara vantagem, os chineses estão próximos de competir com os EUA em áreas como Inteligência Artificial, robótica, armazenamento de energia e física quântica. O grupo de trabalho reunido pelo CFR afirma que o governo e o setor privado americanos terão de unir forças para responder à competição chinesa dentro dos próximos cinco anos. “O fracasso em fazer isso significará um futuro em que outros países colhem a maior fatia dos benefícios do desenvolvimento tecnológico, e novos centros de inovação substituem os Estados Unidos como fontes de ideais originais e de inspiração para o mundo.”

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