China inaugura trem rápido Pequim-Xangai um ano antes do previsto

Cláudia Trevisan

28 de junho de 2011 | 07h53

A China inaugura na sexta-feira o trem de alta velocidade que ligará a capital do país, Pequim, a seu centro financeiro, Xangai, a mais cara obra realizada desde a chegada do Partido Comunista ao poder, em 1949. Com 1.318 km de extensão e custo de US$ 33 bilhões, a linha foi construída em 39 meses e concluída um ano antes da previsão inicial.

Não por acaso, sua abertura ao público coincidirá com o aniversário de 90 anos do Partido Comunista, celebrado em um ofensiva propagandística que envolve filmes, séries de TV, espetáculos de canções revolucionárias e publicação de livros “vermelhos”. O trecho Pequim e Xangai é o mais extenso para trens rápidos construído de uma só vez em todo o mundo e é o principal símbolo da ambição chinesa nesse setor. Até o próximo ano, o país terá 13.000 km de linhas de alta velocidade, o que vai superar a soma das existentes no restante do planeta _no Brasil, a planejada ligação entre Campinas, São Paulo e Rio teria 518 km.

“Foram necessários apenas 39 meses para construir um trem de alta velocidade de alto padrão e reconhecido mundialmente, o que é um presente para o 90˚ aniversário do Partido”, disse o ontem engenheiro-chefe do Ministério das Ferrovias, He Huawu. “Isso [o trem] é o orgulho da China e do povo chinês”, ressaltou.

Como todas as composições de alta velocidade, as que farão o trecho Pequim-Xangai estampam os caracteres chineses para a palavra “harmonia”, que o presidente Hu Jintao transformou na marca de seu governo com a proposta de criação de uma “sociedade harmônica”.
A intenção original era que o trem andasse a 350 km/h, mas o limite foi reduzido em abril para 300 km/h por razões econômicas, ambientais e de segurança. Também haverá trens com velocidade máxima de 250 km/h, para os quais as passagens serão mais baratas.

Na versão mais rápida, o percurso será feito em quatro horas e 48 minutos, metade do tempo atual _o mesmo trajeto de avião é feito em cerca de duas horas. Dependendo da classe e da velocidade do trem, a passagem custará de 410 yuans (R$ 101,20) a 1.750 yuans (R$ 431,90). A redução da velocidade foi anunciada dois meses depois do afastamento por suspeita de corrupção do ex-ministro das Ferrovias, Liu Zhijun, que ocupou o cargo de 2003 a fevereiro de 2011 e foi o principal responsável pelo projeto de trens-bala.

A rapidez na construção das linhas foi acompanhada da explosão do débito do Ministério da Ferrovias e a suspeita de que a preocupação com a segurança foi negligenciada pela gestão de Liu. Dados oficiais mostram que a dívida do ministério está atualmente em de US$ 300 bilhões, patamar considerado insustentável por muitos especialistas, mesmo no caso de um governo com excesso de recursos sob sua administração, como o chinês.

A queda de Liu deu origem à especulação de que o Ministério das Ferrovias reduziria o ritmo de expansão dos trens rápidos, mas as autoridades de Pequim sustentam que nada mudou em seus planos, pelos quais a malha de alta velocidade alcançará 16.000 km em 2020. O Plano Quinquenal para o período 2011-2015 prevê investimento de US$ 432 bilhões em todo o setor ferroviário chinês, com a construção de 30 mil quilômetros de novas linhas, extensão 87,5% superior à que foi concluída entre 2006 e 2010.

Se o planejamento for integralmente executado, o país asiáticos chegará a 2015 com 120 mil quilômetros de trilhos, quatro vezes mais os 30 mil quilômetros existentes do Brasil. A China desenvolveu grande parte de sua tecnologia de trens rápidos com a ajuda de empresas estrangeiras, que aceitaram realizar joint-ventures com estatais controladas por Pequim na esperança de ter acesso ao imenso mercado local.

As autoridades chinesas refutam a acusação de que se apropriaram de know-how externo de maneira indevida, mas reconhecem que a experiência estrangeira teve papel relevante para o desenvolvimento do país no setor. Em documento distribuído a jornalistas no ano passado, o Ministério das Ferrovias afirmou que a China desenvolveu inovações originais, mas também fez “re-inovações”, depois de “importar, digerir e absorver” a tecnologia estrangeira.

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