China já é o 5º maior investidor do mundo em outros países

Cláudia Trevisan

20 de setembro de 2010 | 12h00

A China subiu no ano passado da 12ª para a quinta posição no ranking das nações que mais realizam investimentos produtivos em outros países, com um total de US$ 56,5 bilhões, e deverá aumentar ainda mais os negócios fora de suas fronteiras nos próximos anos. “Isso é apenas o começo”, afirmou há poucos dias Shen Danyang, vice-diretor do departamento de imprensa do Ministério do Comércio.

Segundo ele, o investimento chinês em outros países completou em 2009 oito anos consecutivos de expansão, perído no qual o crescimento médio foi de 50% ao ano. Apesar disso, os US$ 56,5 bilhões representaram pouco mais de 5% do Investimento Estrangeiro Direto (IED) global no ano passado, que somou US$ 1,1 trilhão. A cifra ainda é pequena quando comparada ao ritmo de ascensão do PIB da China e ao apetite de suas companhias por oportunidades de expansão no exterior, pondeou Shen. “O ritmo de crescimento [dos investimentos] nos próximos anos será muito mais alto do que o registrado em anos anteriores.”

Enquanto o mundo mergulhou nos últimos dois anos na mais grave turbulência econômica em sete décadas, a China aproveitou a queda de preços globais e foi à busca de bons negócios, fechando operações que vão da compra da sueca Volvo à aquisição de minas e redes de transmissão de eletricidade no Brasil.

Se forem considerados apenas os investimentos produtivos não-financeiros, a China ficou em sexto lugar no ranking de 2009, atrás de Estados Unidos (US$ 248,07 bilhões), França (US$ 147,16 bilhões), Japão (US$ 74,67 bilhões), Alemanha (US$ 62,71 bilhões) e Hong Kong (US$ 52,27 bilhões), segundo dados da Conferência das Nações Unidas para o Comércio e o Desenvolvimento (Unctad). Por esse critério, os investimentos chineses somaram US$ 48 bilhões e registraram retração de 9% em relação ao ano anterior. No mesmo período, o fluxo global de IED despencou 43%.

 Em 2008, o volume de recursos que saiu da China para atividades produtivas no exterior havia dado um salto de 132%, para US$ 52,15 bilhões. Mesmo com a recuperação dos preços dos ativos, o apetite chinês se mantém. Instituto de pesquisa ligado ao governo de Pequim estima que o fluxo de investimentos externos do país chegará a US$ 100 bilhões em 2013 e poderá igualar o que a China receberá em Investimento Estrangeiro Direto (IED) dois anos mais tarde.

O governo de Pequim adotou há quase uma década a política de internacionalização das empresas do país, batizada de go global, mas o movimento só ganhou impulso nos últimos dois anos, com a crise financeira mundial. A maioria das transações está relacionada à aquisição de fontes de recursos naturais essenciais ao crescimento do país, como minérios e petróleo, mas os chineses também querem comprar tecnologias avançadas, ter acesso a redes de distribuição para suas exportações e atuar na área industrial.

Como em todas as regiões, a presença da China na América Latina também está em alta desde 2008 e a região assistiu nos últimos meses a uma sucessão de anúncios de negócios bilionários em vários países, incluindo o Brasil. “Durante a crise, muitos produtores de commodities da América Latina não tinham acesso ao mercado de capitais, enquanto os investidores de Estados Unidos e Europa ficaram sem recursos para investir. As duas coisas, aliadas à crescente demanda da China, levaram ao aumento dos investimentos do país asiático, que tinha dinheiro para realização de negócios”, diz Erik Bethel, CEO do SinoLatin Capital, banco de investimentos especializado em negócios entre as duas regiões.

A queda no preço dos ativos também teve papel fundamental para o aumento da presença chinesa na região, observa Bethel. Apesar disso, ele acredita que os negócios tedem a aumentar ainda mais no futuro, mesmo com a recuperação dos preços. A principal razão para isso é o forte ritmo de crescimento da China, que continuará a ser alimentado pelo massivo processo de urbanização. “Cerca de 400 milhões de chineses vão se mudar do campo para as cidades nos próximos 20 anos e esse processo vai aumentar a demanda por ferro, aço, petróleo, soja, plástico e uma infinidade de outras coisas”, ressalta o executivo.

Desde o início de 2010, a China anunciou negócios no valor de quase US$ 12 bilhões no Brasil, muitos dos quais ainda precisam ser confirmados. Entre os já realizados, o maior foi a compra de 40% do campo de petróleo Peregrino pela estatal Sinochem, uma operação de US$ 3,07 bilhões fechada em maio. Dois meses antes, outra estatal chinesa, a CNOOC, havia desembolsado US$ 3,1 bilhões por 50% da empresa argentina de gás e petróleo Bridas.

Além de comprar ativos, a China tem concedido empréstimos que devem ser pagos por meio da entrega de petróleo. O modelo foi usado no ano passado no financiamento de US$ 10 bilhões dado pelo Banco de Desenvolvimento da China (BDC) à Petrobras. Acordo semelhante, mas no valor de US$ 20 bilhões, foi fechado em abril entre o banco chinês e o governo da Venezuela.

A China é o segundo maior consumidor e importador de petróleo do mundo, depois dos Estados Unidos, e tem uma dependência crescente de fornecedores estrangeiros para suprir suas necessidades energéticas. No ano passado, o país importou 52% do petróleo que consumiu e o governo estima que o percentual chegará a 65% em 2020.

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