China pune Bloomberg por texto sobre futuro presidente

Cláudia Trevisan

30 de junho de 2012 | 07h16

O site da Bloomberg foi bloqueado ontem na China, depois que a agência de notícias divulgou uma extensa reportagem sobre a fortuna da família do provável futuro presidente da China, Xi Jingping, o que claramente enfureceu os dirigentes comunistas e os censores do país. Fruto de uma investigação de dois meses, o texto afirma que parentes de Xi possuem patrimônio avaliado em quase US$ 450 milhões.

A estimativa foi realizada a partir de documentos apresentados por empresas a autoridades de Hong Kong e registros imobiliários de propriedades localizadas na ex-colônia britânica. A agência não localizou nenhum ativo em nome de Xi, de sua mulher, Peng Liyuan, ou da filha do casal. Mas sua irmã mais velha, Qi Qiaoqiao, seu marido, Deng Jiagui, e a filha de ambos, Zhang Yannan, foram identificados como proprietários da maior parte dos bens e investimentos analisados na reportagem.O texto ressalta que não foi encontrado nenhum indício de que Xi tenha usado sua influência para beneficiar os negócios de seus familiares.

O mais valioso dos ativos é a participação do casal no capital na Shenzhen Yuanwei Investimento Co., uma holding com negócios imobiliários e atuação em outras áreas. Em dezembro de 2011, os ativos de Qi e Deng na companhia estavam em US$ 288 milhões. O casal também detém o capital total de outras empresas do mesmo grupo, no valor de US$ 84,8 milhões. Zhang, a sobrinha de Xi Jinping, tem participação de US$ 20,2 milhões na Hiconics Drive Technology, valor 40 vezes superior ao que ela investiu inicialmente, em 2009. A investigação também descobriu uma vila em Hong Kong estimada em US$ 31,5 milhões e pelos menos outros seis imóveis na ilha no valor total de US$ 24 milhões.

De acordo com o script da sucessão chinesa, Xi Jinping deverá assumir o cargo de secretário-geral do Partido Comunista no congresso da organização no fim do ano, em substituição a Hu Jintao. Se tudo correr como previsto, ele se tornará presidente da China em março.

A corrupção dos dirigentes é um dos mais graves problemas da China e o próprios líderes do país já declararam várias vezes que a sobrevivência do Partido Comunista depende em grande medida de sua habilidade de combater desmandos, enriquecimento ilícito e abusos de poder de seus integrantes.

Entre os chineses comuns, há ressentimento crescente em relação aos privilégios e riqueza disfrutados pelos dirigentes do país e seus familiares. São comuns relatos de filhos de funcionários públicos dirigindo carros de luxo e é generalizada a percepção de que as relações familiares contam mais que o mérito no processo de ascensão social.

Na medida em que a China enriqueceu nas últimas três décadas, a desigualdade entre ricos e pobres aumentou mais do que em qualquer outro país em desenvolvimento. Eles ainda não chegaram aos patamares escandalosos do Brasil, mas estão cada vez mais próximos. E a percepção de exclusão econômica é agravada por um regime autoritário que privilegia os que estão no poder e não dá aos demais qualquer possibilidade de influenciar nas decisões do país.

A palavra que rege os negócios na China é guanxi, que pode ser traduzido como rede de relacionamentos ou de influência. Xi Jinping pertence ao grupo chamado de “príncipes”, por ser filho do herói revolucionário Xi Zhongxun, que lutou ao lado de Mao Tsé-tung na Revolução Comunista. Qualquer relação com ele é uma garantia de abertura de portas para negócios.

Do texto da Bloomberg: “Orville Schell, diretor do Centro sobre Relações Estados Unidos-China da Sociedade Asiática em Nova York, disse que o nexo entre poder e riqueza pode ser encontrado em qualquer país. ‘Mas não há nenhum país em que isso é mais verdadeiro do que a China’, ele disse. “Há uma enorme vantagem passiva só por pertencer a uma dessas árvores familiares.”