China: quente ou frio?

Cláudia Trevisan

17 de janeiro de 2012 | 08h12

É cada vez mais evidente que os anos de crescimento chinês na casa dos dois dígitos são coisa do passado, mas as previsões sobre o futuro da segunda maior economia do mundo nunca foram tão disparatadas. O time dos otimistas é majoritário e avalia que as autoridades de Pequim estão conduzindo o país para um pouso suave, no qual os índices de expansão do PIB cairão para algo em torno de 8% no curto prazo, antes de desacelerar ainda mais no médio e longo prazos. Mas há um grupo cada vez maior de pesos-pesados que veem um cenário sombrio, em grande parte como consequência dos desequilíbrios criados pelos esforços de Pequim para manter sua economia a todo o vapor quando o mundo fraquejava nos últimos três anos.

Os que apostam no final feliz afirmam que os números do PIB de 2011 divulgados hoje mostram que o Partido Comunista conseguiu controlar os preços sem sacrificar o ritmo de expansão. A economia cresceu 8,9% no quatro trimestre, continuando a descida gradual iniciada no primeiro trimestre, quando o indicador foi de 9,7%. A perda de fôlego era desejada pelo governo, que passou o ano de 2011 lutando contra a dupla ameaça de explosão inflacionária e de formação de uma bolha no setor imobiliário.

“Nós não devemos mais ser obcecados com a velocidade do crescimento”, disse ao jornal oficial China Daily Lu Zhongyuan, vice-diretor do Centro de Pesquisa em Desenvolvimento do Conselho de Estado, o gabinete comandado por Wen Jiabao. Em sua avaliação, o índice de expansão do PIB ficará em torno de 8,5% em 2012.

Para os pessimistas, esse cenário róseo ignora a ameaça de uma série de bombas-relógio que as autoridades terão dificuldades para desativar. A mais delicada delas é a bolha no setor imobiliário, que coloca o governo entre a necessidade de reduzir o preço das residências e escritórios e o risco de paralisar os investimentos no setor que responde por cerca de 20% da economia (se for incluída a produção de aço e cimento destinada à construção).

Os juros sobre depósitos bancários na China estão negativos e a escassa oferta de investimentos rentáveis levou muitas famílias a destinarem sua poupança à compra de apartamentos e casas, na expectativa de que os preços subiriam no futuro. Com o aumento das compras, os preços subiram, o que estimulou mais compras. O problema é que esse ciclo levou a um excesso de investimentos no setor, argumentam os pessimistas, com milhares de imóveis vazios em todo o país. Se os preços começarem a cair rapidamente, as famílias que colocaram sua poupança no setor podem entrar em pânico ao ver seus ativos se desvalorizarem. Se muitos decidirem vender ao mesmo tempo, pode haver um crash no setor, com impacto devastador sobre diversos setores da economia e os exportadores de commodities que alimentam o boom de construção da China, entre os quais o Brasil e seu minério de ferro.

Para agravar a situação, o governo de Pequim não tem agora a mesma munição de 2008, quando lançou um megapacote de estímulo e deu sinal verde para os bancos emprestarem bilhões e bilhões de dólares que se transformaram em investimentos _em metrôs, rodovias, ferrovias, fábricas, apartamentos, pontes e uma infinidades de outros projetos. Muitos deles não eram necessários e não são rentáveis, o que poderá levar ao aumento da quantidade de créditos podres nos bancos, que já consumiram uma bolada para serem saneados na década passada.

O problema é que o mundo depende muito mais do crescimento da China hoje do que em 2008 e se essa turbina também deixar de funcionar…Houston, we have a problem.

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