China terá 13.000 km de trens rápidos até 2020

Cláudia Trevisan

29 de julho de 2010 | 12h17

Enquanto o Brasil pena para construir o trem rápido de 518 km que deve ligar Rio, São Paulo e Campinas, a China anuncia que vai adicionar 6.000 km de linhas do tipio à sua rede até 2012. Com isso, vai quase dobrar a malha de alta velocidade, para 13.000 km, cifra que vai superar a soma do que existirá em todos os demais países juntos.

Essa febre de construção vai exigir o equivalente a R$ 202 bilhões de investimentos nos próximos dois anos, cifra quase quatro vezes maior que os R$ 55,7 bilhões que o Brasil destinará a todo o setor ferroviário.

Em pouco tempo, a China se transformou em um dos líderes globais na construção de trens rápidos e começa a colocar em prática a estratégia de exportar tecnologia e equipamentos ferroviários para outros países. Entre eles, está o Brasil, onde os chineses devem disputar o contrato do Trem de Alta Velocidade (TAV) com japoneses, sul-coreanos, franceses, espanhois e alemães.

A ofensiva do país asiático para internacionalizar sua indústria ferroviária foi lançada no ano passado e levou as gigantescas estatais do setor a buscarem negócios em todas as regiões do planeta.

Por enquanto, um dos maiores acordos é com a Argentina, que receberá US$ 12,5 bilhões em financiamentos e investimentos para expandir sua rede e recuperar as linhas de Buenos Aires. A condição é que os recursos sejam utilizados na compra de tecnologia e equipamentos da China. 

Pequim começou sua incursão no setor ferroviário latino-americano em 2009, com um acordo para a construção 470 km de linhas entre as cidades venezuelanas de Tinaco e Anaco.

Atualmente, os chineses também tentam obter contratos nos Estados Unidos, Rússia, Arábia Saudita, Mianmar, Polônia, Índia, Quirguistão e Uzbequistão, segundo o Ministério das Ferrovias. 

A eventual vitória chinesa na disputa pelo TAV entre Rio, São Paulo e Campinas transformará o Brasil em uma espécie de vitrine para venda de produtos e serviços de um setor visto como estratégico pelo governo de Pequim, mas cujo crescimento não é isento de controvérsia.

Os interessados na obra, avaliada em R$ 33 bilhões, devem entregar suas propostas em novembro. A escolha do vencedor está prevista para o mês seguinte.

A China desenvolveu grande parte de sua tecnologia de trens rápidos com a ajuda de empresas estrangeiras, que aceitaram realizar joint-ventures com estatais controladas por Pequim na esperança de ter acesso ao imenso mercado local.

As autoridades chinesas refutam a acusação de que se apropriaram de know-how externo de maneira indevida, mas reconhecem que a experiência estrangeira teve papel relevante para o desenvolvimento do país no setor.

Em documento distribuído a jornalistas ontem, o Ministério das Ferrovias afirmou que a China desenvolveu inovações originais, mas também fez “re-inovações”, depois de “importar, digerir e absorver” a tecnologia estrangeira.

“A China aplicou os frutos da civilização de trens de alta velocidade”, declarou em entrevista coletiva o engenheiro-chefe do ministério, He Huawu. Segundo ele, o país está disposto a compartilhar suas “conquistas” com o restante do mundo.

O Banco Mundial avalia que a transferência de tecnologia, aliada à experiência chinesa na operação de milhares de quilômetros de linhas, transformará a indústria ferroviária local em uma das mais avançadas do mundo. “Isso deve posicionar o país para competir internacionalmente quando outros países adotarem trens de alta velocidade”, destaca estudo da entidade também divulgado ontem.

O Ministério das Ferrovias vai mais longe e sustenta que o desenvolvimento da China nesse setor pode levar ao “renascimento” e à “revitalização” das ferrovias em todo o mundo. 

A entrada da China na disputa internacional nesse setor terá um marco simbólico em dezembro, quando o país sediará o 7º Congresso Mundial de Alta Velocidade (Highspeed 2010), na primeira vez em que o evento ocorrerá fora da Europa.

Os investimentos ferroviários tiveram uma das maiores fatias no pacote de estímulo de US$ 586 bilhões anunciado pela China em novembro de 2008 para combater os efeitos da crise econômica global.

De acordo com o governo, a construção de ferrovias recebeu investimentos de US$ 89 bilhões no ano passado, que levaram ao consumo de 20 milhões de toneladas de aço e de 120 milhões de toneladas de cimento, além de criar 6 milhões de empregos em toda a cadeia produtiva do setor.

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