China teve 29% dos lucros globais de bancos em 2011

Cláudia Trevisan

03 de julho de 2012 | 05h43

Os gigantescos bancos estatais chineses responderam por 29% dos lucros globais do setor no ano passado, em uma demonstração do impacto devastador da crise na Europa sobre as instituições financeiras da região e da mudança tectônica dos eixos da economia rumo ao Oriente. Em 2007, a participação do país asiático no resultado total era de apenas 4,6%, segundo a revista britânica The Banker, que divulgou ontem seu anuário sobre a indústria em 2011.

Bancos chineses ocuparam as três primeiras posições no ranking das 1.000 instituições que registraram os maiores lucros no ano passado. O Industrial and Commercial Bank of China, o maior do mundo em ativos, ficou no topo, com US$ 43,2 bilhões, seguido do China Construction Bank (US$ 34,8 bilhões) e do Bank of China (US$ 26,8 bilhões). Com lucros de US$ 26,7 bilhões, o norte-americano J.P. Morgan ficou em quarto lugar. O HSBC registrou ganhos de US$ 21,9 bilhões e foi o líder na Europa.

“Enquanto os bancos europeus contabilizam os custos da crise da dívida soberana na zona do euro, a China está liderando os mercados emergentes para uma nova era de dominação bancária”, disse a publicação.

Mas os lucros das instituições chinesas decorrem menos de sua eficiência do que de um sistema perverso que beneficia os bancos e lhes garantem generosas margens de ganho, enquanto penaliza os depositantes. Os bancos chineses são quase todos estatais e operam em um ambiente pouco transparente e protegido de concorrência externa.

Os ganhos são garantidos por juros controladas pelo governo, em um modelo que reprime a remuneração dos depósitos das famílias e estimula a expansão do crédito, principalmente para outras empresas estatais. Em 2011, os clientes receberam 3,40% no ano para entregar seu dinheiro aos bancos, índice que ficou abaixo da inflação de 5,4% _ou seja, perderam. Já os bancos cobraram pelo menos 6,56% sobre os empréstimos que realizaram. Esse modelo sustentou o boom de investimentos que garantiu a China continuar a crescer enquanto a maior parte do mundo agonizava nos últimos três anos. Parte significativa do crescimento chinês foi subsidiado pelas famílias, cuja poupança não foi remuneradas da maneira devida.

Só no ano passado, as instituições financeiras chinesas emprestaram 7,5 trilhões de yuans_ o equivalente a US$ 1,2 trilhão_, um aumento de quase 16% em relação ao ano anterior. Os bancos chineses tiveram uma explosão de financiamentos desde 2009, em razão da agressiva política de estímulo ao crescimento adotada pelo governo chinês.
Analistas sustentam que muitos dos empréstimos concedidos nos últimos três anos não serão recuperados, já que financiaram investimentos de baixo ou nenhum retorno econômico. Mas o tamanho dos créditos podres não aparece nos balanços dos gigantescos bancos estatais.

Segundo a The Banker, a parcela dos lucros das instituições chinesas no total da indústria aumentou 41,6% em 2011 na comparação com o ano anterior, quando elas obtiveram 20,7% dos ganhos. Entre os 10 primeiros integrantes do ranking divulgado ontem, 4 são chineses.

O impacto da crise europeia ficou evidente na lista, que apresenta os 1.000 maiores bancos do mundo. No ano passado, 49 instituições passaram de lucros para prejuízo, 36 das quais estão baseadas na Europa. No levantamento de 2010, apenas 14 bancos viram seus ganhos transformados em perdas. A região é sede de 24 dos 25 maiores prejuízos de instituições que antes eram lucrativas.

Mas não foram só os chineses que ampliaram sua presença no ranking entre os países em desenvolvimento. A América Latina emplacou 62 instituições na lista de 1.000, com alta de 17% em relação anterior, na maior variação entre os mercados emergentes.

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