China vai desacelerar no segundo semestre de 2011

Cláudia Trevisan

17 de agosto de 2011 | 12h28

A China vai desacelerar no segundo semestre, em razão do menor ritmo de crescimento do crédito e do investimento, previu ontem o instituto de pesquisa norte-americano Conference Board, que espera um “pouso suave” do país. A entidade tem uma projeção menos rósea para o médio prazo _dois a três anos_, quando aposta em uma redução “significativa” na velocidade de expansão da segunda maior economia do mundo. Na avaliação da instituição, a freada será provocada por medidas “drásticas” que Pequim terá de adotar para mudar seu modelo de crescimento baseado em investimentos e exportações.

Paradoxalmente, o Conference Board divulgou ontem seu indicador econômico para a China, que mostra aumento da atividade econômica em junho, na comparação com os meses anteriores. Mas dados relativos a julho indicam que o aperto monetário promovido pelo banco central desde o início de 2010 teve efeito sobre a expansão do país. No mês passado, o volume de novos empréstimos ficou em 492,6 bilhões de yuans (R$ 122,9 bilhões), menos que os 633,9 bilhões de yuans (R$ 158,2 bilhões) de junho e abaixo dos cerca de 550 bilhões de yuans (R$ 137,2 bilhões) esperados por analistas.

O crédito é a principal fonte de recursos dos investimentos e ambos os indicadores foram responsáveis pelo alto índice de crescimento da economia chinesa nos últimos dois anos, lembra Jing Sima, economista do Conference Board. Dados divulgados na semana passada pelo Escritório Nacional de Estatísticas revelaram que o investimento em ativos fixos nos primeiros sete meses do ano aumentou 25,4% _uma ligeira desaceleração de 0,2 ponto percentual em relação ao patamar registrado nos primeiros seis meses.

A expansão na produção industrial passou de 15,1% em junho para 14% no mês seguinte, enquanto o Índice de Compras de Gerentes calculado pelo HSBC ficou em 49,3, na primeira vez em um ano em que o indicador caiu abaixo da marca de 50 que separa expansão de contração da atividade. Mas economistas do HSBC ressaltaram que, na China, esse nível é compatível com uma produção industrial na casa de 11% a 13%, o que sustentaria um crescimento do PIB de 9% no ano. A venda de carros caiu 11,1% entre junho e julho, apesar de ter aumentado 2,2% em relação a igual período do ano passado. A desaceleração levou a Associação de Fabricantes de Veículos da China a revisar para baixo a previsão de expansão do asetor em 2011.

Segundo o economista do Conference Board, a melhoria do indicador de atividade de junho calculado pela entidade foi puxada pelo aumento da expectativa positiva dos consumidores. Na avaliação da instituição, o movimento se deveu principalmente à ampla divulgação na mídia oficial da afirmação do governo de que a inflação havia atingido um pico e começaria a cair. Mas o Índice de Preços ao Consumidor continuou a se acelerar e atingiu em julho 6,5%, o maior patamar em dois anos.

A pressão inflacionária reduz a margem de manobra do Banco do Povo da China de afrouxar a política monetária para estimular a economia. Desde outubro, a instituição elevou em nove vezes o percentual de depósitos que os bancos devem manter imobilizados, sem emprestar a seus clientes _o índice está no patamar recorde de 21,5%. A medida reduziu a quantidade de dinheiro disponível para o crédito e foi acompanhada da elevação da taxa de juros. A maioria dos analistas acredita que a autoridade monetária abandonará a política de aperto em razão do agravamento da crise nos países ricos. Mas não há consenso em relação à possibilidade de afrouxamento, com alguns apostando na redução do depósito compulsório dos bancos, outros prevendo um cenário de estabilidade, em resposta às pressões inflacionárias, e uma minoria acreditando em uma alta de 0,25 ponto percentual dos juros.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.