China vai desacelerar para 3%, diz Pettis

Cláudia Trevisan

23 de agosto de 2011 | 11h34

Tradicionalmente pessimista em relação à China, o norte-americano Michael Pettis acredita que o país vai desacelerar de maneira “dramática” depois de 2013, para inimagináveis 3%. Mas mesmo que isso não ocorra, ele afirma que haverá queda na demanda por commodities não-alimentícias, em razão do inevitável processo de correção dos profundos desequilíbrios da economia chinesa, que se manifestam no excessivo investimento e anêmico consumo. Para o Brasil, a mudança é crucial, já que pode afetar as vendas de minério de ferro, o principal produto de exportação nacional, com embarques de US$ 18,38 bilhões nos primeiros seis meses de 2011 _quase metade dos quais destinados à China. A cifra correspondeu a 15,6% das vendas totais do país, bem à frente do segundo colocado, o petróleo, com 8,50% no mesmo período.

Segundo Pettis, o boom de investimentos que alimenta a expansão chinesa aprofunda os desequilíbrios e é insustentável em razão do alto endividamento que gera. “Todos os países com crescimento milagroso amparado em investimentos tiveram um problema de dívida, sem exceção”, ressalta o economista, que apresentará sua visão do relacionamento Brasil-China no congresso internacional que a BM&FBovespa realiza nesta semana em Campos do Jordão. Caso o consumo realmente cresça e leve ao aumento da demanda por comida, isso poderá amenizar o impacto sobre o Brasil, que poderia expandir suas exportações de commodities alimentícias, diz Pettis. A seguir, trechos da entrevista, concedida em um café no bairro universitário de Pequim:

Qual seu cenário para a China?
Eu acredito que a China vai desacelerar de maneira dramática, para 3%. Mesmo que o crescimento fique em 9%, no que eu não acredito, o ritmo do investimento vai ter de diminuir de maneira significativa e ser substituído pela expansão no consumo, no processo de rebalanceamento da economia.
Se houver a substituição do investimento pelo consumo, isso terá grande impacto sobre o Brasil. Quando os chineses consumirem, eles vão comprar roupas, ir a restaurantes, consumir serviços de saúde e construir menos metrôs e prédios. Eu acredito que a demanda total vai cair muito, mas mesmo que ela permaneça a mesma, ela vai mudar de bens de investimentos para bens de consumo. Portanto, a demanda por commodities não-alimentícias, como minério de ferro e cobre, vai cair de qualquer maneira.

Qual o horizonte de tempo desse cenário?
A maioria dos economistas acredita que não veremos mudança significativa até que a nova geração de líderes assuma o poder, em 2013. Mas a transformação ocorrerá quando eles alcançarem consenso sobre a necessidade de realizá-la, o que pode demorar mais tempo. Quanto mais eles demorarem, mais difícil será o ajuste, porque o nível de endividamento será mais elevado. Nós todos esperamos que ocorra rapidamente, porque será menos doloroso, mas quando ele ocorrer o crescimento vai desacelerar de maneira significativa.

O agravamento da crise nos EUA e na Europa aumentou a pressão sobre a China para reequilibrar sua economia?
Sim. Nos anos 70, os Estados Unidos e a Europa tiveram uma crise e o Brasil, não. Graças à reciclagem de petrodólares houve um enorme aumento dos investimentos e um boom no preço de ativos, o que atrasou o ajuste no Brasil. Mas isso se tornou insustentável quando os níveis de endividamento ficaram muito altos. Nós vamos ver a mesma coisa [na China]. Essa conversa sobre descolamento dos BRICS não faz sentido. É a mesma conversa que existia nos anos 70, de que os LDC [países menos desenvolvidos, na sigla em inglês] estavam se descolando. Eles não estavam. O impacto da crise nos países ricos foi retardado em razão do enorme boom em investimentos.

Mas por que a China vai desacelerar?
Porque o que está promovendo o crescimento também está agravando os desequilíbrios. O consumo está aumento muito lentamente, porque o rápido crescimento é gerado por transferências das famílias, por meio de baixos salários, baixa taxa de juros e moeda depreciada. Isso reduz o consumo e subsidia o crescimento, gerando dois grandes desequilíbrios. O primeiro é o fato de o consumo ser muito baixo em relação ao PIB e estar no patamar mais baixo que já vimos na história, de 34%. O crescimento chinês está sendo sustentado pelo superávit comercial _e com o mundo em uma situação difícil ele não pode continuar a crescer_ e investimento, mas o investimento tem sido mal alocado. Isso significa que a dívida está crescendo, o que gera um problema de sustentabilidade.
Por quanto tempo a China pode sustentar o aumento do débito? Eu não sei. Talvez 4 a 5 anos, no máximo, mas no fim eles estão caminhando para o mesmo problema de dívida que o Brasil enfrentou em 1981 e o Japão, no início dos anos 90. Os níveis de endividamento eram muito altos e não foi possível manter o modelo de crescimento baseado no investimento.

Mas eles têm dinheiro, não? Na década passada a China saneou seus bancos e retirou de seus balanços os créditos irrecuperáveis. Eles não podem fazer a mesma coisa agora?
Como eles fizeram isso? Com enormes transferências das famílias. No ano 2000, o consumo representava 46% do PIB, o que é bastante baixo, mas não sem precedentes. No ano passado, o percentual estava em 34% do PIB. Há uma relação entre as duas coisas. Quando eles retiraram dinheiro das famílias para sanear os bancos, eles reduziram o consumo. Mas agora o consumo das famílias já está tão baixo que não pode ser reduzido mais ainda.
Como eles vão limpar os bancos? Eles podem continuar a tirar dinheiro das famílias, mas se fizerem isso a China vai ficar ainda mais desequilibrada e mais dependente do superávit comercial _o que o mundo não pode absorver_ e de investimentos. Mas se o investimento está sendo mal alocado, quanto mais rapidamente ele cresce, mais rapidamente a dívida cresce. Eles podem continuar fazendo isso até que tenham um problema de endividamento, e isso vai ocorrer. Todos os países com crescimento milagroso amparado em investimentos tiveram um problema de dívida, sem exceção.

O que isso significa para países como o Brasil, que dependem da China em razão da exportação de commodities?
Mesmo que o crescimento chinês continue elevado, a taxa de investimento vai cair de maneira dramática e isso vai provocar queda no preço de commodities não-alimentícias. Se o consumo se expandir, o consumo de alimentos vai aumentar, na medida em que as pessoas terão mais dinheiro para comprar comida. Não há dúvida de que a demanda por commodities não-alimentícias vai cair de maneira acentuada nos próximos 4 a 5 anos. A grande questão é o que acontecerá com as commodities alimentícias. Se a China conseguir manter elevadas taxas de consumo, os alimentos não serão afetados de maneira dramática. Mas se a taxa de consumo também desacelerar, isso também afetará o preço dos alimentos. O Brasil exporta os dois tipos de commodities. As não-alimentícias serão afetadas dramaticamente e as alimentícias podem ou não ser afetadas.

Qual é a disposição da China de fazer o rebalanceamento, considerando o fato de que os desequilíbrios se agravaram nos últimos dois anos com a resposta do país à crise de 2008?
É muito difícil fazer o ajuste, porque ele significa menos crescimento e historicamente a maioria dos países não faz o ajuste enquanto podem adiá-lo. E quando você não pode mais adiar? Quando tem uma crise da dívida. Isso é o que ocorreu com a União Soviética, o Brasil, o Japão, os países do milagre asiáticos, todos os que tiveram rápido crescimento sustentado por investimentos. Eles mantiveram isso por muito tempo, até que uma crise da dívida os forçou a parar. O que esperamos é que a China pare antes da crise da dívida.

Muita gente acredita que as regras econômicas não se aplicam à China, que o país é diferente e pode fazer coisas que outros não conseguiriam. Por que a China precisa mudar agora se conseguiu manter seu modelo por tanto tempo?
Essa é uma velha crença. Nos anos 80 havia a crença de que o Japão não seguia ‘regras econômicas ocidentais’, seja lá o que isso signifique. Todo mundo ‘sabia’ que até o fim do século o Japão seria a maior economia do mundo. O debate não era se isso ocorreria, mas quando ocorreria. Nos anos 60 e 70, todo mundo ‘sabia’ que o Brasil nunca iria parar. Havia crescimento, crescimento, crescimento. Aconteceu a mesma coisa com os países do milagre asiático ou os Estados Unidos nos anos 20. Ninguém na década de 20 acreditava que os Estados Unidos teriam uma pequena recessão, muito menos a Grande Depressão.

Qual sua visão da economia mundial?
Bastante negativa. Não há fonte de demanda em nenhum lugar, a não ser por excesso de investimentos. E excesso de investimento não pode ser uma fonte saudável ou sustentável de crescimento. O excesso de investimento exacerba o ajuste inevitável. Nós temos 4 ou 5 anos muito difíceis pela frente.

As reservas internacionais de US$ 3,2 trilhões não podem ajudar a China a enfrentar uma eventual crise de dívida?
As pessoas que não entendem nada de reservas internacionais as veem como uma grande fortaleza. Quem entende, as veem como um dos problemas fundamentais da economia chinesa. O Banco do Povo da China não é rico e está provavelmente quebrado. Ele não detém reservas, ele compra reservas e as paga emprestando dinheiro. Ele tem US$ 3,2 trilhões em reservas, mas também tem US$ 3,2 trilhões em dívida. Quanto mais rapidamente as reservas crescem, mais difícil é administração da política monetária e mais excesso de investimento ocorre.

E há alguma maneira de a China parar de acumular reservas?
Sim, abrindo mão do superávit em conta corrente, o que eles não querem fazer. O superávit em conta corrente é alto porque a China produz mais do que consome. E a China consome pouco porque a renda das famílias é baixa, em parte por causa da moeda depreciada, em parte por causa do baixo ritmo de crescimento dos salários, mas principalmente pela baixa taxa de juros. Isso transfere recursos dos poupadores, que são as famílias, para emprestadores, que são as empresas estatais, os empreendedores imobiliários, os construtores de infraestrutura etc. Há muitas coisas que eles podem fazer, mas tudo isso diminui o crescimento. A razão pela qual a China está crescendo é a transferência das famílias que subsidiam o rápido crescimento.

A pressão pela valorização do yuan está crescendo e um número sem precedentes de acadêmicos chineses está pedindo mudanças no câmbio. Isso pode ocorrer?
O debate se arrasta há anos. As pessoas que entendem as razões do desequilíbrio na China sustentam há anos que os juros precisam subir e a moeda precisa se apreciar. Mas há setores muito poderosos da economia que resistem, como o setor exportador e os devedores. Quando existem distorções na economia por longo prazo, os setores que se beneficiam dessas distorções se tornam cada vez mais poderosos e são os que mais resistem à sua eliminação das distorções. É uma problema em todos os países. Os acadêmicos sabem há muito tempo que é necessário apreciar o valor da moeda, mas há oposição política muito forte dos que se beneficiam da moeda desvalorizada.

O ajuste chinês é necessariamente ruim para o Brasil?
Depende do horizonte de tempo. No curto prazo será muito ruim. Mas o que aconteceu nos últimos 10 a 20 anos no Brasil é o que o Brasil gastou grande parte dos anos 70 e 80 tentando reverter, que é a crescente dependência de commodities. Acreditava-se que o excesso de dependência das commodities era uma das fontes de fragilidade dos países em desenvolvimento e houve um esforço para diversificar além das commodities e criar uma fonte de crescimento mais equilibrada.
Se eles estavam certos _e eu acredito que estavam_, a queda no preço das commodities vai forçar o Brasil a reduzir o peso das commodities, o que será muito doloroso, mas necessário. A menos que você acredite que desta vez as pessoas que dizem que o preço das commodities nunca vai cair estão certas. E elas disseram isso muitas vezes nos últimos 200 anos e sempre estiveram erradas.

Muitos também dizem que a natureza das commodities mudou, que elas agregam tecnologia e estão mais sofisticadas.
Sempre disseram isso nos booms de commodities. Você não pode ter um boom de commodity sem pessoas dizendo ‘desta vez é sustentável’. O fato de que estão dizendo agora não muda nada. Nos últimos 200 anos, o preço médio de commodities sempre foi o mesmo. Nos anos 70, o preço real das commodities provavelmente era ligeiramente maior do que o atual.

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