China vê complô do Ocidente em Prêmio Nobel da Paz

Cláudia Trevisan

12 de outubro de 2010 | 10h08

A imprensa oficial chinesa afirmou ontem que a entrega do Prêmio Nobel da Paz ao dissidente Liu Xiaobo faz parte de um “complô” para evitar a emergência da China e reflete o preconceito do Ocidente contra o crescente poderio do país.

“A premiação de Liu é uma provocação contra a China”, disse o China Daily, jornal em inglês editado pelo Conselho de Estado, subordinado ao primeiro-ministro Wen Jiabao. A mesma publicação descartou a possibilidade de que a escolha de Liu leve Pequim a realizar transformações políticas. “Alguns têm a expectativa de que o prêmio vai produzir mudanças na China na direção que eles desejam. Mas ele pode fazer pouco, além de expor, e em alguns casos realçar, o profundo e extenso abismo ideológico entre este país e o Ocidente.”

O governo chinês reagiu com fúria à premiação de Liu, condenado em dezembro de 2009 a 11 anos de prisão sob a acusação de subversão em razão de seu papel na elaboração da Carta 08, documento que pede o fim do regime de partido único e a adoção de um regime democrático e republicano.

Classificando Liu de “criminoso”, as autoridades de Pequim afirmaram que sua premiação é uma “profanação” do espírito do Nobel, que seria destinado a homenagear pessoas que colaboram para a “paz entre as nações”.

O China Daily ressaltou que é a segunda vez na história em que o prêmio é dado a uma pessoa “identificada como não-pacífica” por Pequim. Na primeira, em 1989, o homenageado foi o líder espiritual tibetano dalai lama, considerado um “separatista” pelas autoridades do país.

A ideia de uma conspiração ocidental contra a China foi reforçada pelo Global Times, ligado ao Partido Comunista. “Parece que em vez de paz e unidade na China, o Comitê Nobel gostaria de ver o país se dividir ideologicamente ou, melhor ainda, colapsar como a União Soviética”. O jornal observou que por trás da premiação está “o extraordinário terror da emergência da China e do modelo chinês”.

As publicações rechaçaram o que consideram uma interferência indevida em assuntos internos da China e fizeram um paralelo com o período em que o país foi colonizado por potências estrangeiras, no fim do século 19 e começo do 20.

“Se isso tem ou não relação com nossas memórias coletivas dos abusos ocidentais, essa nação não vai permitir que seus próprios assuntos domésticos sejam decididos pelo Ocidente”, ressaltou o China Daily.  

Os comentários nos dois jornais oficiais foram algumas das únicas exceções à censura que vigora no país em relação à premiação de Liu Xiaobo. Isso significa que poucos chineses sabem que um de seus compatriotas ganhou o Nobel da Paz.

A mulher de Liu Xiaobo, Liu Xia, continuava ontem em prisão domiciliar, depois de ter se reunido durante uma hora com ele na prisão no domingo. Em mensagem colocada em sua página no Twitter, Liu Xia disse que estava impossibilitada de fazer ou receber chamadas. Ligações para seu celular eram respondidas com a mensagem de que o número não estava em operação.

Apesar de redes sociais como Twitter e Facebook serem bloqueadas no país, milhares de chineses usam mecanismos que permitem contornar a censura. O mais comum deles é a VPN (Virtual Private Network), que dá aos usuários uma identificação online fora da China e permite que a “Grande Muralha de Fogo” da internet seja ultrapassada.

Em outro comentário no Twitter, Liu Xia disse que o marido foi informado por funcionários da prisão na noite de sábado sobre sua escolha para o Prêmio Nobel da Paz. Segundo ela, quando ambos se encontraram ontem, ele chorou e ofereceu a homenagem aos mortos nas manifestações de pró-democracia na praça Tiananmen, em 1989, das quais ele participou.

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