Chineses desconhecem saga de ativista cego

Cláudia Trevisan

30 de abril de 2012 | 08h09

Presente nas primeiras páginas e nas chamadas dos principais jornais e TVs do mundo, a saga do ativista cego Chen Guangcheng é virtualmente desconhecida na China. Não há menção ao caso na imprensa, que é controlada pelo Estado, e tentativas de comentar o assunto na internet esbarram na muralha da censura. Na versão chinesa do twitter, chamada de weibo, todas as palavras que podem fazer alusão a ele e sua espetacular fuga são bloqueadas. A lista inclui os óbvios CGC (as iniciais de seu nome) e “homem cego”, além de criações destinadas a burlar os censores, como “Abing” (um célebre músico cego), “The Shawshank Redemption” (filme estrelado por Tim Robbins sobre a espetacular fuga de uma prisão americana) e “UA898” (de acordo com rumores aparentemente infundados, esse seria o número do voo que teria levado Chen para os EUA).

Eu conversei há pouco com um amigo chinês relativamente bem informado, graduado em uma das principais universidades do país e ligeiramente crítico ao governo chinês. Ele não tinha ideia de que Chen Guangcheng havia escapado da estrita vigilância em que era mantido em sua casa havia 19 meses. Na verdade, mal sabia quem era Chen Guangcheng, um homem cuja história é fonte de inspiração para a comunidade de ativistas na China.

Nem mesmo moradores da vila Dongshigu, onde ele era mantido isolado, sabiam de sua fuga, empreendida no dia 22 de abril. “Eu não escutei nada sobre isso. Não é possível que ele tenha conseguido escapar”, disse à Agência France Presse um camponês que não quis se identificar. “[As autoridades] construíram um muro de concreto ao redor da sua casa e há câmeras de segurança em todos os lugares.”

Chen aproveitou segundo de distração dos guardas que o vigiavam dia e noite e pulou o muro em um noite sem lua. Depois disso, caminhou durante horas, nas quais caiu centenas de vezes, até encontrar He Peirong, a mulher que o levou até Pequim.

Cego desde a infância, Chen só se alfabetizou depois dos 20 anos e se formou como massagista e acupunturista, duas das poucas atividades reservadas na China aos cegos, que são proibidos de frequentar a universidade. Mas ele desafiou o destino que lhe era reservado, assistiu aulas da Faculdade de Direito como ouvinte e se tornou um advogado autodidata. Suas primeiras ações foram voltadas à defesa dos direitos de cegos e deficientes. Logo, Chen despertou a ira das autoridades locais da província de Shandong ao expor uma série de casos de abortos e esterilizações realizados à força, algo proibido pela legislação que rege a política de filho único na China.

Sua atuação levou ao afastamento de alguns dos responsáveis pelos casos, mas Chen também foi punido. Em um julgamento que advogados e ativistas afirmam ter sido totalmente manipulado, ele foi condenado a quatro anos e três meses de prisão por “destruição propriedade” e “distúrbio do tráfego”. Cumpriu a pena até o fim, mas continuou preso em sua casa, em uma decisão que não tinha amparo na lei ou em qualquer ordem judicial.
Agora, o ativista está sob proteção de diplomatas dos Estados Unidos em Pequim. Segundo a entidade norte-americana ChinaAid, ele poderá deixar a China em breve e se tornar um exilado político nos EUA.

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