Chipotle, latinos e a disputa pela Casa Branca em 2016

Cláudia Trevisan

19 de abril de 2015 | 22h31

Hillary Clinton comeu um burrito na rede de fast food mexicana Chipotle no primeiro evento de campanha presidencial, realizado na última segunda-feira em Ohio. No mesmo dia, seu potencial adversário Marco Rubio usou uma frase em perfeito espanhol no discurso de lançamento de sua candidatura. Poucos dias antes, o New York Times havia revelado que Jeb, o novo representante da dinastia Bush na corrida pela Casa Branca em 2016, cometeu o ato falho de se identificar como “hispânico” em seu registro eleitoral de 2009.

Nunca uma disputa pela presidência revelou de maneira tão clara a penetração da imigração latina nos Estados Unidos, evidente no cotidiano e nos serviços de atendimento ao consumidor, nos quais “oprima el dos para español” é onipresente.

Hillary não fala a língua nem descende de imigrantes vindos de países ao sul do Rio Grande, que demarca parte da fronteira entre os EUA e o México. Mas além do burrito em Ohio, ela apresentou dois irmãos latinos com subtítulos em inglês no vídeo de lançamento de sua candidatura. Mi hermano y yo estamos empezando un primer negocio, diz um deles, que dividiu o anúncio com casais brancos, negros e gays, uma mãe solteira, uma mulher que sonha em começar uma nova vida depois da aposentadoria, um empresário e Hillary, também pronta para um novo projeto -a presidência dos Estados Unidos.

O Partido Democrata da candidata e de Barack Obama é o grande defensor de reformas que dão aos 11 milhões de imigrantes ilegais a chance de regularizar sua situação e pedir a cidadania americana. Mas o campo adversário tem as conexões latinas mais evidentes.

Marco Rubio e o ultraconservador Ted Cruz são filhos de imigrantes cubanos que chegaram aos Estados Unidos antes da Revolução de 1959. Além do espanhol fluente, ambos coincidem na rejeição à política de reaproximação entre Washington e Havana, anunciada por Obama e o presidente Raúl Castro no dia 17 de dezembro.

Jeb Bush é casado com uma mexicana, Columba, com quem tem três filhos. O irmão mais novo de George W. Bush viveu com a mulher na Venezuela no fim dos anos 70 e domina o espanhol, assim como Rubio e Cruz. Em outro sinal da influência latina, Jeb abandonou a igreja episcopal em que foi criado e se converteu ao catolicismo em 1995.

Os latinos representam 17% da população americana e são o maior grupo étnico ou racial depois dos brancos. A previsão dos demógrafos é que o percentual chegue a 31% em 2060. No mesmo período, a fatia dos negros na população americana deve passar dos atuais 15% para 18%.

Rubio e Bush defendem reformas do sistema de imigração, mas a posição pode ser vista como excessivamente progressista pelos republicanos que votam nas primárias do partido e decidem quem será o representante da legenda na disputa presidencial. Esse grupo está à direita do eleitor médio americano, o que pode reduzir as chances do escolhido na disputa geral com o candidato democrata. O discurso extremista pode funcionar para as bases da legenda de Ronald Reagan e o George Bush pai e filho, mas corre o risco de ser rejeitada por um eleitorado cada vez mais diverso em sua origem e orientação sexual.

Na tentativa de se identificar com a experiência dos latinos, Hillary foi além do Chipotle e declarou que seus quatro avós eram imigrantes –não do sul do Rio Grande, mas da Europa. A imprensa americana foi rápida em mostrar que apenas um deles, Hugh Rodham, nasceu fora das fronteiras dos EUA.