Com fracasso de cúpula, Trump e Kim voltam ao ponto de partida

O presidente americano inverteu a lógica de negociações internacionais e colocou a cúpula entre os dois líderes no início –e não no fim- das conversas. Depois de dois encontros que não levaram a resultados concretos, é duvidosa a realização de um terceiro

Cláudia Trevisan

28 de fevereiro de 2019 | 12h40

Donald Trump repetiu juras de amor a Kim Jong-un e reduziu de maneira dramática as ambições imediatas dos EUA nas negociações sobre o programa nucelar norte-coreano. Ainda assim, foi incapaz de convencer o ditador do país mais isolado do mundo a dar o primeiro passo para desmantelar seu arsenal. O colapso das conversas evidenciou quão distante da realidade estavam as declarações de Trump depois de seu primeiro encontro com o ditador: “Não há mais uma ameaça nuclear da Coreia do Norte”.

Nos oito meses que transcorreram desde esse grito de vitória, Kim continuou a produzir combustível nuclear e a fabricar bombas, de acordo com avaliação do próprio serviço de inteligência dos EUA. A única diferença em relação a seu comportamento anterior é a suspensão de testes –os últimos foram realizados no fim de 2017. Não há dúvida de que a decisão reduziu a tensão na região e diminuiu a probabilidade de erros de cálculo que podem levar a confrontos. Mas isso está longe de significar desnuclearização.

Trump iniciou o processo de negociação com a Coreia do Norte com exigências maximalistas de total desmonte do programa nuclear em curto espaço de tempo. No domingo, antes de embarcar para a segunda cúpula, no Vietnam, ele reduziu suas pretensões. “Eu não estou com pressa. Eu não quero apressar ninguém”, disse em um evento na Casa Branca. “Eu só não quero testes. Enquanto não houver testes, eu estou feliz.”

Muitos em Washington viram na declaração um sinal preocupante de que Trump poderá caminhar para a aceitação tácita do programa nuclear norte-coreano, nos moldes da que existe em relação a Israel. Todo o mundo sabe que eles têm “a bomba”, mas os EUA estão satisfeitos desde que os israelenses não falem sobre o assunto.

Na cúpula no Vietnam, foi a vez de Kim apresentar exigências maximalistas. Segundo o presidente americano, o ditador exigiu o levantamento de todas as sanções em vigor e ofereceu em troca apenas a destruição de Yongbyong, a principal usina de produção de combustível nuclear. Em 2008, a Coreia do Norte implodiu a torre de resfriamento do complexo, no âmbito de uma das negociações fracassadas sobre seu programa nuclear.

Trump disse que as negociações continuarão, mas o fracasso no Vietnam foi uma derrota para ele. Os EUA estavam seguros de que conseguiriam compromissos concretos e colocaram na agenda do presidente a cerimônia de assinatura de um eventual acordo, cancelada assim que o colapso ficou claro. As conversas com Kim são a principal aposta da política externa do presidente americano, que sonha em ser indicado para o Prêmio Nobel da Paz pela iniciativa. Sua expectativa é protagonizar uma façanha comparável à de Richard Nixon, que surpreendeu o mundo ao visitar a China em 1972 e colocar fim a mais de duas décadas de isolamento, abrindo caminho para normalização das relações diplomáticas entre os dois países.

Para Kim, a simples realização da cúpula já foi uma vitória. A máquina de propaganda norte-coreana usou o encontro para promover a imagem do “líder supremo” perante a cativa audiência doméstica. Na quinta-feira, o jornal oficial Rodong Sinmunestampou 17 fotos coloridas do primeiro dia de encontro entre Kim e Trump. Acima de tudo, ele ganhou tempo.

A dúvida agora é sobre o próximo passo. O presidente americano inverteu a lógica de negociações internacionais e colocou a cúpula entre os dois líderes no início –e não no fim- das conversas. Depois de dois encontros que não levaram a resultados concretos, é duvidosa a realização de um terceiro. Sem acordo entre os líderes sobre questões centrais, é difícil ver como assessores poderão avançar a partir de agora.

No início de 2018, Kim declarou que havia atingido o objetivo de construir um arsenal nuclear, visto como essencial para a sobrevivência do regime. Semanas antes, ele já havia suspendido os testes que provocaram turbulência durante 2017. Nada indica que Kim pretenda retomá-los. Isso pode levar a uma aparente tranquilidade na região, mas os dois lados estarão basicamente onde começaram: os EUA manterão as sanções econômicas e a Coreia do Norte, o seu arsenal nuclear.

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