Comer, beber, viver

Cláudia Trevisan

01 de junho de 2008 | 11h26

Sábado à noite eu fui jantar em um dos mais sedutores bairros de Pequim, chamado Ho Hai, e
fiquei assombrada com a transformação do lugar desde a última vez que o havia visitado, há três anos. Com casas antigas espalhadas ao redor de dois grandes lagos, Ho Hai já era um dos principais endereços de bares e restaurantes da capital, mas a multidão que tomou conta de suas ruas acabou com qualquer vestígio de placidez oriental que existia até pouco tempo. Os restaurantes estavam absolutamente lotados, com esperas que giravam em torno de uma hora, e o número de pessoas tornava a caminhada uma empreitada comparável a um congestionamento no horário do rush.
A explosão da vida noturna e a popularização do hábito de comer fora são sinais do enriquecimento chinês e da mudança de comportamento que ele provoca. Pessoas que visitavam Pequim há cerca de 20 anos, viam uma cidade sem carros e luzes à noite, na qual a única opção viável para comer eram os restaurantes dos hotéis.
Para os chineses, o lazer era limitado pela falta de oferta e pelo pouco dinheiro para desfrutá-la. O primeiro restaurante privado da capital, chamado Yuebin, foi aberto em 1980, mas o boom do lazer aconteceu na década atual. Hoje há casas especializadas nas cozinhas de todas as regiões da China e de várias partes do mundo, incluindo o Brasil. Os preços variam de menos de 10 reais a mais de 500 reais e há bolsos para todos eles.
A culinária é um elemento central na cultura chinesa e comer é comparado a uma arte. Até pouco tempo, quando dois chineses se encontravam eles não se saudavam com um “oi, tudo bem?”, mas com “chi le ma?”, que quer dizer “você já comeu?” Os restaurantes lotados de sábado reuniam grupos de pessoas ao redor de mesas fartas, cada uma com vários pratos que invariavelmente iriam sobrar e seriam embrulhados para viagem. Comer na China é uma celebração coletiva e não existe o conceito de prato individual dos restaurantes ocidentais. O grupo pede vários pratos e todos comem o que vêm à mesa. Também não há tabus nem divisões entre carnes. A mesma refeição pode ter porco, peixe, frango, carneiro e crustáceos, por exemplo. Quanto aos tabus, meus vizinhos de mesa no jantar de sábado se deliciavam com pequenas taturanas fritas, uma das iguarias de Yunnan, província do sudoeste da China na qual o restaurante era especializado.
Barracas que servem comida na rua também são extremamente populares e reúnem longas filas no horário de almoço. Algumas só abrem à noite e estão entre as principais opções de lazer dos moradores de Pequim. São essas barracas que vendem escorpiões e bichos da seda fritos, ao lado de cavalos marinhos e estrelas do mar, que ajudam a comprovar o popular ditado segundo o qual os chineses comem tudo o que voa e não é avião, tudo o que anda e não é carro e tudo o que se move na água e não é navio.