Confronto entre críticos e defensores de Fidel marca Cúpula das Américas

Cláudia Trevisan

09 de abril de 2015 | 12h10

O confronto entre dissidentes cubanos e defensores dos governos de Havana e de Caracas marcou o primeiro dia do fórum da sociedade civil que ocorre no âmbito da 7ª Cúpula das Américas, no Panamá. Opositores de Raúl Castro foram chamados de “mercenários” e “vendidos ao império” na entrada e na saída do evento. Dentro do salão, a delegação “oficial” dos dois países realizou um protesto com faixas e palavras de ordem contra os EUA e a presença de ativistas independentes no encontro.

Quando o fórum terminou, um grupo de pessoas com bandeiras da Venezuela e de Cuba se reuniu na porta de saída e cantou Guantanamera, intercalando a música com gritos de “Fidel, Fidel” e “Cuba Socialista”. Mais cedo, a palavra de ordem havia sido “Fora Clinton”, voltada ao ex-presidente Bill Clinton, que abriu o evento.

A polícia panamenha teve de intervir para garantir a entrada de alguns ativistas independentes no fórum da sociedade civil. O protesto dentro do plenário só acabou quando os organizadores ameaçaram retirar os manifestantes à força.

A cúpula atual é a primeira que tem a presença do governo de Cuba e de representantes da sociedade civil, que se dividem entre os críticos e os defensores de Castro, ligados a organizações que contam com apoio oficial. Estes acusam os opositores de receberem financiamento dos Estados Unidos.

Manuel Cuesta Morúa, um dos principais dissidentes cubanos, disse que os representantes da sociedade civil “revolucionária” –pró-governo- chegaram ao Panamá sem disposição de dialogar com as organizações independentes. “Eles não toleram que representantes da diversidade e da pluralidade democrática cubana convivam no mesmo espaço em que eles estão. Essa intolerância revolucionária à diversidade e à diferença se manifesta aqui”, disse ao Estado.

Porta-voz do Partido Arco Progressista, Morúa observou que a Cúpula das Américas é o primeiro evento que dá “legitimidade” tanto ao governo de Cuba quanto à sociedade civil democrática. “Atores que não falam dentro do país agora estão no mesmo local”, afirmou. Mas Morúa disse considerar pouco provável que a coincidência promova um diálogo entre os dois lados, em razão da resistência dos grupos oficiais.

O representantes das organizações defensores dos governos de Cuba e da Venezuela se retiraram do fórum em protesto à presença no evento de ONGs independentes. “São mercenários inescrupulosos pagos por um império e não representam nenhuma sociedade”, declarou ao Estado Yordanys Gomez, que integra a delegação cubana para o Fórum da Juventude.

O presidente Barack Obama foi um dos principais alvos do protesto que os grupos pró-governo realizaram dentro do plenário do evento. Os manifestantes pediam a revogação do decreto de Obama que impôs sanções a sete venezuelanos acusados de violação de direitos humanos. De acordo com o grupo, o governo do Panamá não poderia ter credenciado para o evento integrantes das ONGs independentes.

O presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, pretende entregar a Obama um abaixo assinado com 10 milhões de adesões contra as sanções. Apesar de atingir apenas sete pessoas, o decreto classifica a Venezuela como uma “ameaça” à segurança nacional e à política externa americana. A administração dos EUA sustenta que essa é a linguagem exigida por lei para a imposição de sanções, mas ela se transformou em um bandeira de Maduro para obtenção de apoio nos dias que antecedem a cúpula.

O confronto com a Venezuela ameaça ofuscar o principal assunto da cúpula, que é a presença de Cuba. O país participa pela primeira vez do evento, que está em sua sétima edição. A primeira cúpula foi realizada em Miami em 1994.

Há quatro meses, Obama e Castro surpreenderam o mundo com o anúncio de que seus países estavam reatando relações diplomáticas depois de cinco anos de rompimento, o que colocou fim ao último vestígio da Guerra Fria no continente. Existe a expectativa de que o presidente americano use o evento para anunciar a decisão de retirar Cuba da lista de países que patrocinam o terrorismo, o que facilitaria investimentos e transações financeiras na ilha. Ontem pela manhã, Obama se reuniu com o secretário de Estado, John Kerry, a quem cabe recomendar –ou não- a exclusão de Cuba da relação. A ilha faz parte da lista desde 1982, ao lado de Sudão, Síria e Irã.

O presidente americano chega ao Panamá amanhã, depois de se reunir com líderes caribenhos na Jamaica. Na agenda, a segurança energética dos países diante do colapso da Petrocaribe, a iniciativa Venezuela que garantia petróleo subsidiado ao Caribe.

No fim do dia, ele estará ao lado da presidente Dilma Rousseff em um painel do fórum de CEOs, que reunirá representantes de 700 empresas das Américas. Outro painel do evento discutirá as oportunidades de investimentos em Cuba, depois do reatamento das relações diplomáticas com os Estados Unidos.

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