Crise exige mudança de modelo e apreciação do yuan, diz chinês

Cláudia Trevisan

10 de agosto de 2011 | 08h37

A crise em torno do endividamento norte-americano e o rebaixamento da nota do país pela Standard & Poors evidenciaram a necessidade de a China transformar seu modelo de crescimento, o que implica mudança no regime de câmbio e apreciação do yuan, disse o diretor do Centro de Pesquisa em Reservas Internacionais da Universidade Central de Finanças e Economia de Pequim, Li Jie.
“Nós não podemos mais continuar a acumular reservas”, ressaltou Li. Para isso, a China tem de reduzir seu superávit externo, com aumento das importações e queda das exportações.
A seguir, os principais trechos da entrevista:

Qual o impacto da decisão da S&P para a China?
O maior impacto é sobre as reservas internacionais. A China é o país com o maior volume de títulos norte-americanos. Com o rebaixamento da dívida, deve haver elevação dos juros sobre a dívida americana, o que reduzirá o valor dos títulos detidos pela China. Eles vão em direções opostas.
Outro aspecto é o investimento futuro das reservas chinesas. O modelo de crescimento chinês depende das exportações e gera a acumulação de reservas. Se não mudarmos esse modelo, as reservas continuarão a aumentar e não há nenhum ativo financeiro líquido o bastante, grande o bastante e seguro o bastante no qual esses recursos podem ser investidos. Nós não podemos mais continuar a acumular reservas.

O que significa a mudança no modelo de crescimento?
Importar mais e reduzir o tamanho das exportações.

É possível fazer isso sem alterar o sistema de câmbio?
Não. O regime cambial tem de ser reformado, para permitir rápida apreciação do renminbi [outro nome do yuan]. Nós temos feito uma apreciação gradual, mas ela não é suficiente. Com a crise da dívida, nós temos que mudar isso.
Uma apreciação gradual pode deteriorar ainda mais o problema da acumulação de reservas, pois estimula a entrada de capital especulativo no país. A magnitude da apreciação tem que ser grande o bastante para desestimular esse fluxo de capital.

Há disposição política em Pequim para uma apreciação do renminbi?
Existe o temor de perda de empregos no setor exportador, mas esse modelo não é mais sustentável. Não há onde investir as reservas. Os Estados Unidos não podem mais sustentar um modelo baseado no consumo.

Isso significa que o modelo chinês baseado na poupança também não é mais sustentável, certo?
Nós temos discutido os desequilíbrios globais por longo tempo. Esse modelo podia ser mantido enquanto os Estados Unidos provessem o mundo com débito seguro [onde a poupança chinesa poderia ser investida], mas isso deixou de existir.
Toda a arquitetura econômica internacional tem que mudar. Esse é o momento para a China passar a consumir mais e os Estados Unidos pouparem mais.

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