Default na América e o fundamentalismo do Tea Party

Cláudia Trevisan

15 de outubro de 2013 | 23h43

Disfuncional é o adjetivo usado com mais frequência pelos que tentam descrever o estado atual da política americana. Mas na terça-feira ele se tornou obsoleto e parecia quase um elogio diante da insanidade promovida pela direita do Partido Republicano reunida no Tea Party _a facção que foi apresentada ao mundo pelas credenciais de Sarah Palin, a candidata a vice-presidente de 2008 interpretada de maneira magistral por Julianne Moore no filme Game Change.

Liderados pelo cavernoso senador Ted Cruz, os ultraconservadores republicanos parecem dispostos a infligir danos irreparáveis à maior economia do planeta para promover sua agenda política, no topo da qual está a destruição da reforma do sistema de saúde de Barack Obama aprovada pelo Congresso em 2010.

Derrotados em suas inúmeras tentativas de revogar o Obamacare pelo processo legislativo regular nos últimos três anos e meio, o Tea Party decidiu usar o que o empresário Warren Buffet comparou a uma “arma nuclear”, aquela que provoca devastação tão profunda que nunca deve ser usada.

Cruz e seus seguidores decidiram condicionar o aumento do teto de endividamento à retirada de todo o financiamento da reforma da saúde, que é o principal legado da administração de Obama. A partir de quinta-feira, o Tesouro perderá a capacidade de se financiar no mercado e poderá deixar de pagar compromissos que vencerão ao longo dos dias seguintes. O default não será imediato, mas deve chegar até o dia 1º de novembro, caso o Congresso seja incapaz de chegar a um acordo.

Cerca de 50 milhões de americanos não possuem seguro saúde e correm o risco de quebrar se tiverem doenças na família. Os Estados Unidos não contam com um sistema público de saúde e a ideia _que está no centro da reforma_ de tentar incluir pelo menos 30 milhões de pessoas no universo dos que possuem alguma forma de seguro é algo que Sarah Palin e Ted Cruz equiparam ao comunismo.

O fundamentalismo do Tea Party divide o Partido Republicano e coloca na defensiva os representantes tradicionais da legenda, como John McCain, adversário de Obama na eleição de 2008. Esse grupo olha com espanto e horror ao radicalismo e intolerância de Cruz e seus seguidores, mas teme se opor de maneira explícita à onda ultraconservadora que ameaça submergir o partido.

Os congressistas enfrentarão eleições no próximo ano e muitos republicanos terão como opositores não candidatos democratas, mas sim nomes de seu próprio partido ligados ao Tea Party. O movimento conta com o apoio bilionário de organizações e empresários ultraconservadores, dispostos a financiar campanhas difamatórias contra os republicanos que saírem da linha.

Entre os mais influentes grupos está o Heritage Action for America, que acompanha os votos dos congressistas para mostrar quão conservadores eles são _quanto mais, melhor. Depois que os republicanos na Câmara dos Representantes anunciaram terça-feira uma proposta para tentar reabrir o governo e evitar o default, o Heritage Action a rejeitou com o argumento de que ela não prejudicava Obamacare o bastante.

Um americano com quem conversei sobre a crise comparou a tática do Tea Party ao terrorismo. É um exagero, mas é tentador usar a definição da Wikipedia: “Terrorismo é o uso sistemático do terror violento como meio de coerção”.

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