Derrota é o prenúncio de dois anos turbulentos para Obama

Cláudia Trevisan

05 de novembro de 2014 | 14h50

A derrota de Barack Obama e seu partido nas eleições de meio de mandato foi muito além das mais sombrias previsões democratas e é o prenúncio de dois anos turbulentos para o presidente americano, que estará mais do que nunca sob ataque da oposição. Os republicanos interpretaram o resultado das urnas como um repúdio das políticas governamentais e usarão seu novo poder legislativo para tentar impor sua agenda de corte de impostos e redução do tamanho do Estado.

Apesar de ambos os lados declararem que estão dispostos negociar e buscar acordos, é difícil imaginar republicanos e democratas trabalhando juntos no ambiente de extrema polarização que domina Washington. A situação é agravada pela largada da campanha presidencial de 2016, para a qual os republicanos saíram energizados da vitória de terça-feira.

Mesmo com o controle do Senado, Obama enfrentou implacável obstrução republicana no Congresso e não conseguiu aprovar uma série de propostas que considera fundamentais, como a reforma migratória. Senadores dos dois partidos chegaram a um texto de consenso, mas ele empacou na Câmara dos Representantes, controlada pelos republicanos.

Alguns analistas acreditam que o domínio das duas Casas pela oposição poderá amenizar a paralisação de Washington e dar impulso para a aprovação de medidas sobre as quais há visões coincidentes. Para justificar seu otimismo, citam outros momentos em que republicanos controlaram o Congresso e negociaram com um democrata que ocupava a Casa Branca. O caso mais mencionado é o de Bill Clinton, que governou com republicanos nas duas Casas do Parlamento e aprovou reformas que reduziram o déficit público e mudaram o sistema de assistência social.

Mas a polarização entre os dois partidos é muito maior hoje do que há uma década e meia e existem poucos temas sobre os quais há consenso genuíno. Apesar de ambos os lados defenderem uma reforma migratória, suas posições em relação ao conteúdo das propostas não são coincidentes. Os democratas defendem uma mudança ampla, que estabeleça um caminho para obtenção da cidadania americana pelos 11 milhões de imigrantes que vivem de maneira ilegal nos EUA. A oposição é a favor de uma reforma fatiada e está dividia em relação à questão da cidadania.

Ambos os lados defendem mudanças no sistema tributário, mas enquanto Obama quer acabar com as isenções que beneficiam os ricos, os republicanos se opõem a qualquer medida que eleve a carga tributária.

O primeiro teste do novo arranjo político de Washington acontecerá amanhã, quando Obama receberá líderes dos dois partidos na Casa Branca. Mas só os próximos meses dirão se democratas e republicanos conseguirão falar a mesma língua ou se a polarização se agravará ainda mais, afastando qualquer possibilidade de Obama construir um legado em seus dois últimos anos de mandato.

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