Desigualdade americana, FMI e o diagnóstico francês

Cláudia Trevisan

29 de abril de 2014 | 16h34

A desigualdade de renda deixou de ser vista como um penduricalho do debate econômico e ganhou lugar central nas preocupações de governos, acadêmicos e instituições como o Fundo Monetário Internacional (FMI). A crescente distância entre ricos e pobres é vista cada vez mais como improdutiva do ponto de vista econômico e nociva no terreno político, no qual corrói o funcionamento da democracia com o aumento da influência do poder econômico sobre parlamentos e governos.

Os Estados Unidos vivem um brutal processo de concentração econômica há 30 anos, que foi agravado pela crise de 2008. O sonho americano de oportunidade para todos parece cada vez mais uma ilusão aos olhos de milhões de famílias que ainda vivem os efeitos da maior recessão desde a Grande Depressão de 1929.

O resgate aos bancos e o trilhionário estímulo monetário posterior ao pânico de cinco anos atrás aprofundou ainda mais o abismo de renda. As injeções de liquidez promovidas pelo Federal Reserve geraram fortes valorizações de ações e de imóveis, especialmente nos últimos dois anos, ampliando a riqueza dos que detêm esse tipo de ativos. Mas os salários médios ficaram estagnados e o desemprego ainda atinge 10,5 milhões de pessoas, ou 6,7% da população economicamente ativa.

A desigualdade não é ruim apenas por razões sociais. No início deste mês, economistas do FMI apresentaram estudo no qual demonstram seu impacto negativo sobre a economia. Segundo eles, a ideia de que a disparidade de renda se reduzirá naturalmente em razão do crescimento é um equívoco, “não apenas porque a desigualdade pode ser indesejável do ponto de vista ético, mas também porque o crescimento resultante pode ser baixo e insustentável”. O FMI receita políticas de distribuição de renda e o vice-diretor-gerente da instituição, o chinês Zhu Min, citou as transferências do Bolsa Família no Brasil como um exemplo a ser seguido.

A ideia de que a desigualdade se resolverá sozinha como efeito do crescimento domina o pensamento do Partido Republicano dos EUA, que tem urticária diante de políticas de redistribuição de renda e de aumento de impostos sobre os ricos. Mas muitos economistas acreditam que a diferença de renda está na origem da arrastada recuperação que os EUA experimentam desde que saíram a recessão, em junho de 2009.

No últimos cinco anos, o país cresceu a uma média de 1,8%, índice que é metade do registrado nos anos seguintes às três recessões anteriores. E os números mostram que a recuperação foi extremamente desigual. Entre 2009 e 2012, a renda média real das famílias cresceu 6,0%, mas para o 1% detentor da maior renda a alta foi de 31,4%. Os demais 99% tiveram expansão de 0,4%, segundo estudo do economista Emmanuel Saez, da Universidade da Califórnia em Berkeley. “O 1% que está no topo capturou 95% dos ganhos de renda nos dois primeiros anos de recuperação”, observa Saez. A tendência continuou em 2013 e se mantém em 2014.

O debate nos EUA foi incendiado com o lançamento no país do livro Capital in the 21th Century, do economista francês Thomas Pinketty. Com título inspirado no clássico O Capital de Karl Marx, o calhamaço de 696 páginas está na lista de best-sellers do New York Times e ontem estava esgotado nas livrarias de Washington. Raro feito para um estudo econômico, o que levou o New York Times a se referir a Pinketty como uma estrela de rock da economia.

O livro disseca a evolução recente da desigualdade e confronta a crença de que ela se resolverá por si própria como resultado do crescimento econômico. Para o francês, a distância entre ricos e os demais é fruto de políticas públicas e deve ser combatida com políticas públicas. Como Marx no século 19, Piketty tenta projetar tendências de longo prazo para acumulação de renda e sua divisão entre capital e trabalho.

País rico com o maior grau de desigualdade de renda, os EUA ocupam lugar de destaque na obra, mas sua experiência reflete um processo generalizado de concentração de riqueza no mundo desde os anos 70. “Quando a taxa de retorno sobre o capital excede a taxa de crescimento da produção e da renda, como ocorreu no século 19 e provavelmente ocorrerá de novo no 21, o capitalismo automaticamente gera desigualdades arbitrárias e insustentáveis, que corroem os valores da meritocracia nos quais as sociedades democráticas são baseadas”, escreve Piketty.

Para os que se interessarem, no Estadão de domingo eu escrevi sobre a

e o impacto do

Documento

, que está em patamar recorde.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.