Dilma escolhe o branco, nega divisão do país e promete mudança

Cláudia Trevisan

27 de outubro de 2014 | 00h29

Em um partido que tem a cor vermelha na carteira de identidade, a escolha do branco por Dilma e Lula na festa da vitória teve uma simbologia óbvia, que foi relevante por ter se traduzido em palavras no discurso da presidente. Reeleita com uma diferença de apenas 3,5 milhões de votos em um universo de 105,5 milhões, Dilma reconheceu de maneira implícita que havia sido rejeitada por quase metade dos eleitores e se declarou aberta ao diálogo e à conciliação.

“Não acredito que as eleições tenham dividido o país ao meio”, declarou a presidente, que usou vermelho no último debate com o adversário Aécio Neves, mas preferiu o branco no discurso de ontem. Dilma não fez referência ao tucano, escolhido por 51 milhões de eleitores, mas disse acreditar que a “energia mobilizadora” da disputa presidencial tenha preparado o terreno para a “construção de pontes” entre posições divergentes.

Também reconheceu que “mudança” e “reformas” deram o mote da disputa e prometeu se reinventar para tentar atender às aspirações dos brasileiros que querem um país melhor. “Sei que estou sendo reconduzido à Presidência para fazer as grandes mudanças que a sociedade brasileira exige.” Entre as reformas, elegeu a política como prioritária e indicou ajustes “pontuais” nos rumos da política econômica.

Mas apesar da roupa branca e do discurso conciliador, não há dúvida de que o retrato do Brasil que saiu das urnas é trincado em linhas que refletem divisões geográficas e econômicas. Essa imagem exigirá de Dilma decisões que vão além das escolhas cromáticas, em um esforço para evitar o aprofundamento da cisão com setores que não se veem representados em seu governo.

O cenário pós-eleição também demandará mais do PSDB. Apesar da derrota, o partido saiu da disputa com um peso muito maior ao que tinha ao entrar nela. Elegeu mais deputados, mais governadores e obteve os votos de quase metade dos eleitores na disputa nacional. No discurso da derrota, Aécio também defendeu a união do país. Apesar das divergências, há coincidências entre as propostas dos dois partidos e é por aí que o trabalho deve começar.

O Brasil tem pressa e está mais do que na hora de a classe dirigente ajustar seu ritmo ao sentido de urgência que se manifesta nas ruas e nas urnas.

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