Embaixador americano é visto na ‘Revolução do Jasmim’ chinesa

Cláudia Trevisan

25 de fevereiro de 2011 | 07h26

O nome em chinês do embaixador dos Estados Unidos na China, Jon Huntsman, foi bloqueado ontem na internet pelos censores do país, depois que um vídeo veiculado online mostrou o representante norte-americano no ponto de encontro de uma fracassada manifestação contra o governo convocada para o último domingo.

O governo também bloqueou ontem o Linkedin, que passou a ser inacessível como Facebook, Twitter e Youtube. Apreensivas com o que ocorre no mundo árabe, as autoridades de Pequim não quer dar nenhum espaço para os críticos do governo se organizarem.

No vídeo, Huntsman aparece de óculos escuros observando o grupo de pessoas que estava em frente à loja do McDonald´s na Wangfujing, uma das principais e mais movimentadas ruas comerciais da capital. A embaixada norte-americana afirmou que sua presença no local no horário convocado para o protesto foi uma coincidência e que Huntsman estava com sua família quando parou para ver o que estava acontecendo.

O governo chinês acusou de subversão pelo menos três pessoas que retransmitiram na internet a convocação para o fracassado protesto, segundo o Centro para Direitos Humanos e Democracia, com sede em Hong Kong.

O movimento é anônimo e a primeira mensagem foi colocada no site Boxun.com, baseado nos Estados Unidos, que reúne dissidentes e críticos do Partido Comunista. Os responsáveis pelo chamado gostariam de criar uma versão chinesa da “Revolução do Jasmim” que derruba regimes autoritários no mundo árabe.

Subversão é o crime do qual os dissidentes chineses costumam ser acusados e foi o que levou o vencedor do Prêmio Nobel da Paz em 2010, Liu Xiaobo, a receber uma pena de 11 anos de prisão.

Na terça-feira, o mesmo grupo anônimo divulgou um novo manifesto, no qual convoca demonstrações para todos os domingos, às 14h, em 18 grandes cidades do país, incluindo Pequim e Xangai. O texto conclama os chineses a protestar contra corrupção, desigualdade, falta de seguridade social, má utilização do dinheiro público, inflação e ausência de supervisão popular sobre o Estado.

O vídeo que mostra Huntsman no local da manifestação foi colocado no Youtube _bloqueado na China_ e no site nacionalista M4.cn. O embaixador é abordado por um chinês, que questiona sua presença no local e pergunta se ele quer ver a China mergulhada no caos. Huntsman, que fala mandarim fluentemente, responde que não e deixa o local escoltado por dois seguranças quando o chinês começa a dizer para os que estão ao redor que aquele homem é o embaixador dos Estados Unidos na China.

A presença de Huntsman no local fortaleceu o argumento de setores do Partido Comunista que acusam o Ocidente _em especial os Estados Unidos_ de interferência indevida em assuntos internos do país.

O vídeo colocado no M4.cn termina com uma declaração de princípios: “Nós não queremos ser outro Iraque! Nós não queremos ser outra Tunísia! Nem outro Egito! Se a nação mergulhar no caso, os Estados Unidos e esses “reformistas” vão colocar comida na mesa de 1,3 bilhão de chineses?”

Huntsman anunciou sua renúncia ao cargo de embaixador na China no dia 31 de janeiro. Ex-governador de Utah, ele deixará o posto em abril e deverá disputar a indicação do Partido Republicano para a candidatura à presidência contra seu atual chefe, Barack Obama.

Apesar de não haver indícios de que o país poderá viver algo semelhante às manifestações do mundo árabe, as autoridades de Pequim reagiram com mão pesada para impedir qualquer tipo de demonstração.

No fim de semana, o governo prendeu ou colocou sob vigilância policial cerca de 100 ativistas. O controle da internet se intensificou e palavras relacionadas às manifestações no mundo árabe estão bloqueadas. “Jasmim”, nome de um dos mais populares chás do país, não pode ser escrito em microblogs e até o nome de uma cantora que gravou uma canção com esse título estava bloqueado.

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