Entrevista coletiva Made in China

Cláudia Trevisan

18 de março de 2013 | 12h03

Apesar de ser chamada de “entrevista coletiva”, o encontro que o novo primeiro-ministro da China, Li Keqiang, teve ontem com a imprensa não tem nenhuma semelhança com eventos que recebem o mesmo nome em países democráticas. Os jornalistas que se dirigiram ao líder comunista foram definidos previamente e as perguntas que apresentaram tiveram que ser aprovadas com antecedência de dias pelo governo.

Os temas foram aqueles que as autoridades de Pequim queriam abordar e incluíram crescimento econômico, reformas, combate à corrupção, degradação ambiental e relações com os Estados Unidos, Rússia, Taiwan e Hong Kong.Li Keqiang sorriu, gesticulou e falou com a confiança de quem sabia o script que seria seguido de ponta a ponta, não apenas por ele, mas também pelos jornalistas que estavam na plateia.

Não houve nenhuma palavra sobre as mais de cem imolações de tibetanos em protesto contra políticas chinesas para a região nem sobre os violentos conflitos entre camponeses e chefes locais do Partido Comunista em razão da expropriação ilegal de terras.

O Japão foi outro grande ausente da entrevista, apesar do recrudescimento recente do conflito entre os dois países em torno das ilhas que os chineses chamam de Diaoyu e Tóquio, de Senkaku. Mas Li Keqiang tocou no tema de maneira indireta, ao mencionar a determinação da China de proteger a “a integridade territorial do país”.

Das 11 perguntas apresentadas, 5 vieram de veículos oficiais chineses. As outras 6 questões foram apresentadas por jornalistas de Hong Kong, Taiwan, Cingapura, Rússia, França e Estados Unidos. Funcionários do Ministério das Relações Exteriores se sentaram ao lado dos profissionais escolhidos para se dirigir ao primeiro-ministro, o que permitia sua identificação pelo “mestre de cerimônias” em meio aos braços que se levantavam. Para os desavisados, parecia uma entrevista coletiva de verdade.

Além do credenciamento para o Congresso Nacional do Povo, os jornalistas tinham que ter um convite especial para participar da entrevista. Nenhum foi entregue a profissionais do The New York Times, que em outubro publicou reportagem segundo a qual a família do ex-primeiro-ministro Wen Jiabao acumulou fortuna de US$ 2,7 bilhões nos dez anos em que ele permaneceu no poder.

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