‘Eu me sentia rejeitada e entrei em depressão’

‘Eu me sentia rejeitada e entrei em depressão’

Você está acostumado a ler aqui notícias sobre o mundo. Hoje, peço licença para contar a história da Clara*

Cláudia Trevisan

08 Março 2018 | 03h00

Foto: Arte/Estadão

Geralmente você lê notícias sobre o mundo aqui, mas hoje vou emprestar minha coluna para a Clara*. Ela é uma das mulheres vítimas de violência diariamente no Brasil. É uma das milhares de mulheres que ao buscar ajuda não encontram acolhida – se deparam com ainda mais violência. Entender a dimensão da violência contra a mulher é urgente e diz respeito a todos – homens e mulheres.

O texto a seguir aborda violência contra a mulher.

A situação do meu casamento desandou de quatro anos para cá. Ele nunca me bateu, mas eu era vítima de agressão psicológica. Quando ele ficava violento, ele quebrava coisas em casa e dizia que eu não prestava, que eu era fraca, inútil, desprezível. Um vez ele quebrou a mesa e o armário da cozinha e disse que estava fazendo isso para não quebrar minhas costas. Os meus dois filhos, de 4 e 6 anos, viram tudo. Eu me sentia um lixo. Minha única reação era chorar.

Estamos casados há nove anos. Quando as coisas começaram a piorar eu tentava conversar, mas ele não queria. Não havia diálogo. Toda vez que eu tentava conversar, ele reagia com violência. Além da mesa e do armário, ele quebrou a TV, o micro-ondas e os vidros das portas da sala e da cozinha. Cheguei a pedir para ele ir embora, mas cada vez que eu falava disso ele quebrava alguma coisa.

Eu trabalhava como contadora e ele era mecânico. Quando eu pedia para ele me ajudar a cuidar das crianças, ele respondia que a responsabilidade era minha, que eu é que tinha querido ter filhos. No fim de semana, ele passava o tempo todo no celular e não dava atenção para os filhos. Não sentava com eles, não brincava.

Ele chegou a ter uma oficina, mas ela quebrou em 2013. Talvez tenham sido os problemas financeiros, mas tudo começou a piorar no ano seguinte. Eu me sentia rejeitada e entrei em depressão. Eu tinha 72 kg e cheguei a 102 kg em 2015 e 2016. Sofri bullying no trabalho e minha chefe dizia que eu era a pessoa mais gorda que já tinha passado por lá. Sentia uma dor terrível nas costas e acabei demitida em novembro de 2016. No mês seguinte, fiz uma cirurgia na coluna e melhorei muito. Também consegui emagrecer e perdi 36 kg. Hoje estou com 73 kg.

Fazia três anos que ele dormia no sofá, por decisão dele. Em janeiro, ele disse que tinha arrumado emprego em outro estado. Disse que não tinha dinheiro para a viagem e eu dei R$ 300 para ele. No dia 14, ele foi embora. De vez em quando ele liga e diz que está arrumando a vida dele e que voltará para buscar a gente. Mas para mim, nós já estamos separados.

Eu comecei a sair da depressão em 2016 e decidi que tinha que cuidar mais de mim e dos meus filhos. No ano passado, eu abri um brechó, mas aqui na vila onde eu moro as pessoas não tem cabeça aberta para brechó. Acabei fechando e agora vendo só pela internet.  Apesar de tudo o que aconteceu, eu ainda gosto dele. Eu acredito que a pessoa que eu conheci ainda está ali.

Entender o tamanho do problema é urgente e diz respeito a todos nós. Informe-se, apoie e denuncie. Outras colunistas do Estadão também cederam seus espaços. Leia mais histórias aqui. #DeUmaVozPorTodas

*O nome foi trocado para preservar a identidade da vítima.