EUA e China disputam o controle do futuro. Japão e Europa são atores coadjuvantes

Em 2018, já havia mais coisas ligadas à internet do que pessoas: 8,6 bilhões contra 5,7 bilhões. A previsão de especialistas é que as conexões de coisas cresçam 17% ao ano e cheguem a 22 bilhões em 2024

Cláudia Trevisan

03 de outubro de 2019 | 23h45

No centro da guerra sem armas travada entre EUA e China está a corrida pelo domínio das tecnologias que vão moldar o futuro do mundo e as conexões entre pessoas e máquinas. Em todos os terrenos em disputa, o principal adversário dos americanos é o país comunista que teve uma entrada tardia na economia do Século 20. Japão e Europa são atores coadjuvantes e regiões como a América Latina, meros figurantes sem direito a falas no script.

Relatório sobre Economia Digital 2019, divulgado pela Organização das Nações Unidas no mês passado, demonstra com detalhes a ameaça que a China representa à supremacia tecnológica dos Estados Unidos. O documento analisa sete áreas que dominarão o futuro. Em todas, há uma feroz competição entre as duas maiores economias do planeta. “A geografia econômica da economia digital não apresenta a tradicional divisão Norte-Sul. Ela é liderada de maneira consistente por um país desenvolvido e um em desenvolvimento: os Estados Unidos e a China”, diz o relatório, produzido pela UNCTAD, o braço de comércio e desenvolvimento da ONU.

Segundo o documento, os dois países representam 50% do investimento global na Internet das Coisas, a revolução que permitirá que carros e uma infinidade de outros equipamentos sejam conectados à rede mundial de computadores. Em 2018, já havia mais coisas ligadas à internet do que pessoas: 8,6 bilhões contra 5,7 bilhões. A previsão de especialistas é que as conexões de coisas cresçam 17% ao ano e cheguem a 22 bilhões em 2024. Depois dos 26% dos EUA e dos 24% da China, o Japão aparece em terceiro lugar no ranking de investimentos no setor, com 9%. Em seguida, vem a Alemanha (5%).

China e EUA são líderes em inteligência artificial e análise de dados, dois elementos cruciais para o desenvolvimento de computadores capazes de “aprender” e realizar ações como reconhecimento facial, de voz e de movimento. Com 1,4 bilhão de habitantes e nenhuma tradição de garantia de direitos civis de seus cidadãos (entre os quais está a privacidade), a China é um imenso laboratório para experimentos de inteligência artificial. O maior deles está na província de Xinjiang, onde Pequim desenvolveu um sistema tecnológico de vigilância sem precedentes para controlar os muçulmanos uigures, que representavam a maioria da população da região até poucas décadas.

Os chineses estão na frente no número de patentes relacionadas ao 5G e ao blockchain, a tecnologia que permite pessoas e empresas realizarem transações seguras na internet sem necessidade de intermediários. Maior símbolo da guerra tecnológica entre EUA e China, a Huawei detém o maior número de patentes de 5G, a nova geração de internet que permitirá a expansão da Internet das Coisas. Seus maiores concorrentes não são americanos, mas sul-coreanos e europeus, uma rara exceção à polarização vista em outros setores.

Apesar de ter a maior população do mundo, a China investe pesado em robótica e responde por 36% da demanda por robôs industriais em todo o mundo, aponta o estudo. Os EUA detêm a liderança em impressão 3D, mas é seguido de perto por China, Japão, Alemanha e Inglaterra -juntos, esses países dominam 70% da capacidade do setor.

A nova economia digital é alimentada por dados, mas é movida por imensas plataformas digitais como Google e Facebook. Os EUA têm a clara dianteira nessa área, com 68% das 70 maiores plataformas digitais do mundo. A China vem em segundo lugar, com uma fatia de 22%. Isso significa que os dois rivais controlam 90% dessas empresas. Os restantes 10% são divididos entre os demais países da Ásia (5%), Europa (3,6%), África (1,3%) e América Latina (0,2%).

Mais do que a preocupação com déficits comerciais, é a corrida descrita acima que está na origem da guerra sem bombas entre os EUA e China.