Europa deve aprender com Brasil, diz banqueiro Rhodes

Cláudia Trevisan

20 Setembro 2011 | 06h40

Representante dos bancos estrangeiros na renegociação da dívida externa dos países latino-americanos nos anos 80 e 90, William Rhodes afirma que as nações europeias em dificuldade devem se inspirar na experiência brasileira para superar a crise em que estão mergulhadas. “O Brasil reestruturou seu sistema bancário, os bancos aumentaram capital e hoje um dos maiores bancos do mundo em termos de capital é o Itaú-Unibanco”, disse Rhodes ao Estado ontem, em rápida entrevista durante a edição chinesa do Fórum Econômico Mundial, na cidade de Dalian. Ex-vice-presidente do Citigroup, Rhodes acaba de publicar o livro “Banker to the World: Leadership Lessons From the Front Line of Global Finance”, no qual relembra sua experiência na solução da crise da dívida da América Latina. A seguir, a entrevista com o banqueiro, que hoje é conselheiro sênior do Fórum Econômico Mundial para a América Latina:

Que semelhanças o sr. vê entre a crise da dívida europeia e a crise da dívida latino-americana das décadas de 80 e 90?
Muitas. Você tem que ler meu livro, porque eu menciono o Brasil em particular minha experiência lá. O que retirou o Brasil da moratória foi o plano em duas frentes concebido na gestão do e então ministro da Fazenda, Fernando Henrique Cardoso. Primeiro, houve acordo com os bancos e, do lado dos credores, eu representei os bancos e ele obviamente representou o Brasil.
Além disso havia um time de brasileiros, não do FMI ou outro conselho externo, que elaborou o Plano Real, estabilizou a economia e controlou a hiperinflação. Cardoso se tornou presidente por dois mandatos, [Luiz Inácio] Lula da Silva veio depois com seu programa de reformas e [Antonio] Palocci e agora nós temos Dilma [Rousseff]. O Brasil nunca parou desde então. Os europeus precisam estudar o que aconteceu no Brasil, porque os europeus e os americanos estavam dizendo [na época] o que o Brasil deveria fazer e eles deveriam aprender a lição. O Brasil está crescendo hoje com sólidas instituições financeiras.

É possível evitar o calote na Grécia?
Depende. No caso da América Latina e do Brasil, havia o Plano Brady, mas o ponto é que os governos implementaram o que disseram que iriam fazer. Se um chefe de Estado dizia que faria determinada coisa, definia um cronograma e fazia. O problema do que vejo na Europa é que eles fazem anúncios e não definem um cronograma para implementá-los.

Que medidas adotadas pelo Brasil deveriam ser implementadas agora pela Europa?
O que é extremamente importante é a situação dos bancos. O Brasil reestruturou seu sistema bancário, os bancos aumentaram capital e hoje um dos maiores bancos do mundo em termos de capital é o Itaú-Unibanco. Eles desenharam as reformas necessárias e as implementaram. Havia um programa no Brasil, concebido por brasileiros, que levou ao crescimento. O programa final que eu negociei com Fernando Henrique Cardoso levou ao crescimento e isso continuou com Lula da Silva e Palocci e uma parte importante daquele time era Dilma. Então houve continuidade. É por isso que o novo presidente do Peru, [Ollanta] Humala, disse que seu exemplo era Brasil.

Mas na Europa eles precisam coordenar medidas entre diferentes governos. Isso é viável?
Eu estou me referindo a países específicos. São medidas nacionais para a Grécia, Irlanda, Portugal, Espanha e Itália. Quem imaginaria que hoje um dos grande compradores de empresas em Portugal são brasileiros?

E quando pensamos na América Latina dos anos 80 e 90…
Eu nunca desisti. Quando as pessoas diziam “Deus é brasileiro, mas foi embora”… [E mudando o idioma para o português] O país do futuro. O futuro é hoje no Brasil. Eu sou bastante brasileiro. É um grande país, um grande povo.