Facções do Partido Comunista disputam o poder na China

Cláudia Trevisan

05 de novembro de 2012 | 11h48

Os 2.270 delegados do 18º Congresso do Partido Comunista da China se reúnem em Pequim a partir de quinta-feira para chancelar os nomes dos dirigentes que comandarão a segunda maior economia do mundo na próxima década, escolhidos em uma opaca e feroz negociação de bastidores que opõe facções e famílias da elite política do país. Listas com os prováveis integrantes do órgão máximo de comando do partido continuam a circular na China, refletindo a disputa entre conservadores e reformistas e entre futuros, atuais e antigos líderes da organização.

“Eu nunca vi uma situação tão confusa antes, pelo menos não nos últimos 30 anos”, disse ao Estado o analista político independente Zhang Lifan. “A definição da data do congresso foi adiada várias vezes, não há ainda uma decisão final [sobre os nomes] e uma série de escândalos e incidentes políticos aconteceram antes da transição” ressaltou. Apesar da falta de transparência e indefinição, já está decidido que o país será comandado nos próximos dez anos pela dupla Xi Jinping e Li Keqiang, os representantes da “quinta geração de líderes” que serão o presidente e o primeiro-ministro da China, respectivamente.

Os dois assumirão o governo de um país mais poderoso e complexo que o recebido em novembro de 2002 pelos atuais ocupantes dos cargos, Hu Jintao e Wen Jiabao. Naquela época, a China era a sexta maior economia do mundo. Hoje, é a segunda, atrás apenas dos Estados Unidos. No mesmo período, o número de usuários da internet saltou de 46 milhões para 540 milhões, entre os quais quase 300 milhões possuem microblogs semelhantes ao twitter _bloqueado pela censura local.

A década Hu-Wen registrou a maior média de crescimento da China desde o início do processo de abertura, em 1978, quando a prosperidade econômica se transformou na principal fonte de legitimidade do partido. Mas também viu o brutal aumento dos conflitos e da instabilidade social. O número de protestos “de massa” chegou a 180 mil em 2010, quatro vezes o total registrado dez anos antes, segundo estimativa do professor da Universidade Tsinghua Sun Liping citada pelo jornal oficial Global Times.

Manifestações de caráter ambiental também aumentaram. Na semana retrasada, milhares de moradores da cidade de Ningbo, na próspera costa leste, saíram às ruas para demandar o cancelamento da expansão de uma empresa petroquímica considerada poluidora pela comunidade local. Depois de dias de protestos e choques com a polícia, o governo anunciou no domingo a suspensão do projeto. Além do aumento da instabilidade social, a conjunção de crise mundial, interrupção das reformas econômicas e distorções provocadas pelo megapacote de estímulo lançado pelo governo em 2008 ameaçam o crescimento, que neste ano ficará no mais baixo patamar desde 1990.

“Os novos líderes terão que implantar reformas porque há uma enorme pressão nesse sentido dentro e fora do partido”, declarou ao Estado o analista político Chen Ziming. Em sua opinião, o governo terá de fortalecer o combate à corrupção, que é uma das principais fontes de insatisfação popular em relação ao partido. A pesquisa Pew Global Attitudes, realizada nos meses de março e abril em vários países do mundo, mostrou que 50% dos chineses consideram a corrupção como um grave problema _o percentual era de 39% em 2008.

Outra preocupação é o aumento da desigualdade social, que já está entre as maiores do mundo. Dados oficiais indicam que a renda dos moradores das cidades é 3,5 vezes a dos habitantes da zona rural, onde vive quase metade do 1,3 bilhão de chineses. Mas na avaliação de Chen Ziming, a disparidade não poderá ser resolvida sem a reforma do sistema de registro de residência _chamado de hukou_ que limita a mobilidade de pessoas e impede que os camponeses tenham os mesmos direitos sociais dos habitantes das cidades.

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