Fantasia de Trump naufraga diante de diferenças com a Coreia do Norte

EUA queriam o abandono rápido do programa nuclear de Pyongyang, enquanto o outro lado tinha em mente um processo gradual de concessões mútuas

Cláudia Trevisan

24 Maio 2018 | 14h14

Quase três meses depois de ceder à ofensiva diplomática de Kim Jong-un, Donald Trump viu desmoronar sua fantasia de alcançar o que eludiu todos os seus antecessores: convencer a Coreia do Norte a abrir mão de suas armas nucleares, vistas pelo regime mais fechado do mundo como a principal garantia de sua sobrevivência.

Na medida em que o dia 12 de junho se aproximava, ficou evidente a distância nas expectativas dos dois lados. Chefe do Conselho de Segurança Nacional da Casa Branca, John Bolton disse que os EUA tinham em mente o “modelo líbio”, pelo qual o país teria de abrir mão de todo o seu arsenal para só depois receber as contrapartidas prometidas.

A declaração enfureceu Pyongyang, que respondeu na semana passada dizendo que o país não aceitaria o “abandono unilateral” de seu programa nuclear. Para a Coreia do Norte, a cúpula de Cingapura seria o início de um processo de concessões mútuas, no qual restrições à sua capacidade nuclear seriam acompanhadas de reduções na presença militar dos EUA no vizinho do Sul, onde há 28,5 mil soldados americanos.

Bolton se referia ao acordo que foi fechado com a Líbia em 2003, quando ele integrava o governo de George W. Bush. Mas Pyongyang interpretou as declarações como uma referência ao que ocorreu oito anos depois: a deposição e o assassinato de Muammar Gadaffi, em uma rebelião que teve apoio dos EUA. “O mundo sabe muito bem que nosso país não é nem a Líbia nem o Iraque, que tiveram destinos miseráveis”,afirmou na semana passada um dos vice-ministro de Relações Exteriores, Kim Gye Gwan.

Na terça-feira, o vice-presidente Mike Pence se encarregou de fazer a relação direta entre os destinos de Kim e Gadaffi. “Isso só vai terminar como a Líbia se Kim Jong-un não fizer um acordo, declarou em entrevista à Fox News, em uma ameaça pouco diplomática menos de três semanas antes do planejado encontro entre Tump e o ditador norte-coreano.

Além das diferenças de expectativa, parecia improvável que Kim viesse a concordar em abrir mão de toda sua capacidade nuclear, cuja construção esteve no centro de seus primeiros sete anos de governo. O arsenal é visto como a única garantia de sobrevivência do regime contra eventuais agressões dos EUA, o que só foi reforçado pelas declarações de Pence.

Em janeiro, Kim declarou concluídos seus esforços de desenvolvimento de armas nucleares, que agora podem atingir território americano, além de ameaçar diretamente os vizinhos asiáticos. Logo depois, ele deu início a uma ofensiva diplomática de aproximação com a Coreia do Sul e os EUA.

No dia 9 de março, Trump surpreendeu seus próprios assessores ao aceitar o convite de Kim para um encontro bilateral, sem a imposição de pré-condições. Na época, analistas disseram que o encontro deveria ocorrer no fim e não no início de um processo de negociação.