Futebol avança no país da bola oval

Cláudia Trevisan

16 de junho de 2014 | 11h07

O futebol mais popular dos Estados Unidos não tem a bola redonda, mas oval, e envolve o enfrentamento de brutamontes com capacetes e ombreiras. Ainda assim, os americanos formam o maior grupo de estrangeiros que vieram ao Brasil torcer por seus times na Copa do Mundo. Dados da Fifa mostram que residentes no país compraram 196,8 mil ingressos, três vezes mais que o segundo colocado, a Argentina, com 61 mil.

Chamado de soccer no país, o futebol com a bola redonda ganha popularidade a cada ano e começa a despertar o entusiasmo pelo esporte visto em grande parte dos demais países. O consultor John Watson, 32, comprou a passagem para o Brasil em novembro e pediu demissão do emprego quando os chefes exigiram que ele mudasse seus planos, há duas semanas. “Eu uso todas as minhas férias para acompanhar jogos de futebol”, disse Watson ao Estado.

O principal fã clube dos EUA é o American Outlaws, fundado em 2007 na cidade de Lincoln, Nebraska. A entidade tem hoje 18 mil integrantes, espalhados em 130 filiais ao redor do país. A maior delas, criada em 2009, é a de Washington. Seu presidente, Donald Wine II, participa pela primeira vez a uma Copa do Mundo. O plano de assistir ao evento na África do Sul, há quatro anos, foi frustrado quando ele perdeu o emprego.

Agora, Wine se preparou com antecedência, para evitar que a situação se repetisse. “Apesar de eu ter ficado sem emprego cinco meses no ano passado e de novo neste ano, eu não vou deixar esse sonho escapar”, afirmou. Ele verá os três primeiros jogos dos Estados Unidos e os embates entre Japão e Grécia e Itália e Uruguai.

A seleção americana caiu em um grupo difícil, com Gana, Alemanha e Portugal, e poucos fãs acreditam que ela chegará à segunda fase. “Vai ser muito difícil para os EUA”, reconhece Grant Wahl, o mais célebre jornalista especializado em futebol do país, lembrando que Gana eliminou o time americano nas duas últimas Copas.

Em compensação, derrotou Portugal em 2002. Com a Alemanha, haverá uma espécie de jogo de espelhos, já que o técnico Jurgen Klinsmann é alemão e cinco dos jogadores têm ascendência germânica. A surpresa da escalação foi a ausência do atacante Landon Donovan, 32, considerado o melhor do país.

Os americanos já formavam o maior número de fãs estrangeiros na Copa da África do Sul, em 2000, mas o número dos que vieram ao Brasil é o maior da história. “Para muitos de nós, esta é a Copa para a qual devemos ir. Os americanos não vão querer ir para a Rússia nem para o Qatar”, opinou John Levy, 31, que embarcou para o Brasil no sábado com a mulher, Nicole Frasir, 27.

Os dois se casaram no dia 17 de maio e a viagem será a sua lua-de-mel. O casal vai ver os EUA enfrentarem Gana, em Natal, e a Alemanha, em Recife. Levy é o mais apaixonado por futebol da família e, em 2008, criou o blog yanksarecoming.com, no qual escreve sobre o time nacional.

Mas não é apenas a seleção dos EUA que levará fãs do país à Copa do Mundo no Brasil. “Como os Estados Unidos têm seguidores de quase todos os times de futebol, é natural que lidere a compra de ingressos para os jogos”, acredita Wine, do American Outlaws.

A grande população de imigrantes garante que haja torcedores de inúmeras seleções. Graças à comunidade latina, a do México tem o maior número de fãs depois da americana. O poder econômico é outro fator que ajuda a explicar o grande número de residentes no país que estarão na Copa. “Esse é um país rico, no qual as pessoas podem gastar dinheiro para estar em um grande evento”, pondera Wahl.

Segundo ele, o aumento da popularidade do futebol se deve em grande medida às redes de televisão, que na última década aumentaram a oferta de jogos em sua grade. Hoje é possível assistir a uma média de 78 partidas a cada semana. Há 20 anos, eram no máximo duas.

O interesse crescente levou a Sports Illustrated a transformar o blog de Wahl, Planet Fútbol, em um site independente, no início deste mês. Ao anunciar a decisão, o editor Paul Fichtenbaum disse que o interesse por futebol cresceu de maneira “exponencial” em anos recentes. “Cada vez que fazemos coisas sobre soccer, elas simplesmente explodem.”

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