Gu Kailai, a Jackie O chinesa, enfrenta a justiça comunista

Cláudia Trevisan

08 de agosto de 2012 | 09h10

Considerada uma versão chinesa Jackie O por sua beleza e poder, Gu Kailai aparecerá nesta quinta-feira em uma corte da obscura cidade de Hefei para enfrentar um julgamento cujo resultado já foi decidido pela cúpula do Partido Comunista. A mulher do ex-cacique Bo Xilai deverá ser declarada culpada do assassinato por envenenamento do empresário britânico Neil Heywood, que apareceu morto em novembro no quarto de um hotel de Chongqing. A investigação policial feita na época concluiu que o inglês havia morrido pelo consumo excessivo de álcool.

A suspeita de homicídio só veio à tona em fevereiro, quando o ex-braço direito de Bo, Wang Lijun, se refugiou no Consulado dos Estados Unidos em Chengdu, aparentemente pelo temor de ter o mesmo destino de Heywood. A tentativa de “deserção” desencadeou a mais grave crise política da China desde o massacre de estudantes na praça Tiananmen, em 1989. Bo era um dos 25 membros do Politburo, a segunda mais alta instância de poder do Partido Comunista, e forte candidato a integrar o grupo de nove pessoas que detêm o poder máximo do país, cujos nomes serão definidos em outubro.

Wang era o chefe de Segurança Pública de Chongqing, a megacidade de 30 milhões de habitantes que era governada por Bo Xilai até março, quando ele protagonizou uma das mais espetaculares quedas da história chinesa, em um enredo que pareceria inverossímil se criado pela ficção. Depois de duas décadas de proximidade com Bo, Wang havia perdido seu cargo quatro dias antes, aparentemente por ter apresentado ao chefe as evidências de que Gu Kailai era responsável pela morte de Heywood.

O inglês tinha uma longa lista de serviços prestados a Bo e Gu, incluindo a obtenção de vagas nos colégios de elite britânicos ao filho único do casal, Bo Guagua. Tudo indica que Heywood também ajudou a dupla a enviar ao exterior dinheiro fruto de corrupção e uma das interpretações para a motivação do assassinato era a de supostas divergências em torno da quantia exigida pelo britânico por seus serviços.

Bo e Gu integram o que pode ser considerado como a nobreza comunista _ricos, poderosos e com pedigree. Bo faz parte da facção de “príncipes” do partido, os filhos de heróis revolucionários com direito hereditário ao poder. O pai de Gu era um general do Exército de Libertação Popular que também participou da Revolução Comunista. Os dois estudaram na Universidade de Pequim, preferida da elite chinesa ao lado da Universidade Tsinghua.

Enquanto Bo perseguiu a carreira política, Gu se tornou uma advogada de sucesso e, em 1998, escreveu um livro sobre como ganhar ações civis nos Estados Unidos. Em uma passagem, ela elogia a celeridade do sistema judicial chinês: “desde que se saiba que você, fulano, matou alguém, você será preso, julgado e executado”.

Gu foi presa em março e seu destino deverá ser decidido em dois dias, em um julgamento totalmente controlado pelo Partido Comunista. O advogado que havia sido contratado por sua família foi proibido de atuar no caso e Gu será representada por dois profissionais chapa-branca de Hefei. O governo quer resolver o caso logo e sem alarde. A imprensa chinesa, totalmente censurada, não tinha uma linha sobre o julgamento na quarta-feira. Os nomes “Bo Xilai” e “Gu Kailai” estão há meses bloqueados nos microblogs do país.

A narrativa oficial se atém cada vez mais à acusação de homicídio e ignora as suspeitas iniciais de “crimes econômicos”. Para alguns analistas, isso é um indício de que Bo Xilai poderá se livrar de um processo por corrupção. Pistas de qual será o seu futuro deverão aparecer no coreografado julgamento de Gu Kailai.

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