Guerra comercial entre EUA e China continuará em espiral descendente

De olho em sua campanha à reeleição no próximo ano, Trump tenta transformar o embate com Pequim em um trunfo político; pesquisa divulgada pela CBS News em maio mostrou que 86% dos republicanos, partidários do presidente, apoiam sua posição na disputa com o país asiático

Cláudia Trevisan

03 de junho de 2019 | 23h19

Não há ação sem reação na guerra comercial entre a China e Estados Unidos, que se transformou em uma espiral descendente sem piso à vista. Em resposta às restrições impostas pelos EUA à Huawei, Xi Jinping deverá anunciar em breve barreiras de acesso ao promissor mercado chinês contra um seleto grupo de empresas de tecnologia americanas. Donald Trump poderá reagir com a imposição de tarifas sobre os restantes US$ 300 bilhões de importações da China ainda não atingidos por sua artilharia. Para economistas do Goldman Sachs, há 60% de chance de isso ocorrer. E é improvável que Pequim deixe de reagir.

De olho em sua campanha à reeleição no próximo ano, Trump tenta transformar o embate com a China em um trunfo político, com uma narrativa na qual se apresenta como defensor incondicional dos interesses americanos acima do de todos, ainda que isso distorça o comércio, isole os EUA e provoque danos econômicos em escala global. Pesquisa divulgada pela CBS News em maio mostrou que 86% dos republicanos, partidários de Trump, apoiam sua condução da guerra comercial com a China. A maioria dos opositores democratas rejeita sua atuação, enquanto os independentes estão divididos.

O confronto ameaça cadeias mundiais de produção, principalmente na área de tecnologia, e impulsiona o gradual descolamento entre as duas maiores economias do mundo, com efeitos nefastos sobre a globalização. Nos últimos 40 anos, EUA e China criaram laços de dependência que não serão desfeitos sem considerável estrago. No domingo, Pequim anunciou a criação de uma lista de “entidades não-confiáveis”, que terá como foco grandes e estratégicas companhias americanas de tecnologia. Os alvos deverão ser anunciados nos próximos dias.

A medida é uma retaliação à decisão de Washington de incluir a Huawei, maior fabricante de equipamentos de telecomunicações do mundo, na lista de entidades suspeitas do Departamento do Comércio. Com isso, qualquer transação com a empresa chinesa precisará de aprovação prévia do governo americano. A decisão abrange as operações da Huawei na China e em 26 países, entre os quais o Brasil.

Xi Jinping não tem de enfrentar campanhas eleitorais, mas usa o confronto com os EUA para incensar o nacionalismo chinês, o que reduz o espaço para negociações e concessões. Em um gesto pouco sutil, redes de TV estatais passaram a reprisar filmes antigos sobre a Guerra da Coreia, na qual forças chinesas e americanas se enfrentaram no início dos anos 50.

Grandes empresas de ambos os lados sofrerão baixas no fogo cruzado, em razão do elevado grau de dependência entre os dois países. Quarta fabricante mundial de semicondutores, a americana Qualcomm obtém 65% de seu faturamento na China e tem a Huawei como um de seus principais clientes. Com 50% da demanda global, a China é o maior comprador mundial de chips e as companhias americanas estão entre seus maiores fornecedores. Nos semicondutores de ponta, as importações chegam a 95%.

As três companhias com maior valor de mercado do mundo -todas americanas- dependem da China em maior ou menor grau. Sem suas linhas de montagem no país asiático, a Apple não conseguiria fabricar celulares a preços competitivos nem ter acesso aos consumidores chineses para impulsionar suas vendas globais. O império Amazon não existiria sem as pechinchas fabricadas do outro lado do mundo, enquanto a Microsoft seria privada de seu segundo maior mercado global, caso não tivesse acesso à China.

A inclusão da Huawei na lista negra do Departamento de Estado pode restringir o acesso da empresa a semicondutores fabricados por companhias americanas. Esse risco deverá aumentar a determinação de Pequim em desenvolver uma indústria doméstica de chips, meta que o Partido Comunista ainda não conseguiu atingir, apesar de anos de tentativas. O projeto ganhou impulso no ano passado com sanções impostas por Washington à chinesa ZTE e ganhou sentido de urgência com o caso da Huawei -cerca de um terço de seus fornecedores estão nos EUA, entre os quais Qualcomm, Intel e Broadcom.

O grau de dependência da China fica evidente nos números de sua balança comercial. No ano passado, o país importou US$ 300 bilhões em semicondutores, mais do que gastou na compra de petróleo (US$ 239,2 bilhões). O valor supera o total das exportações brasileiras no mesmo período, que ficaram em US$ 240 bilhões.

O desenvolvimento do setor de semicondutores está no coração do Made in China 2025, a política industrial de Pequim que provoca urticária tanto em Trump quanto em seus opositores do Partido Democrata e está na origem da guerra comercial. O objetivo da China é elevar o percentual de chips fabricados por companhias domésticas dos atuais 30% para 40%, em 2020, e 70%, em 2025.

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