Hong Kong e o medo da influência chinesa

Cláudia Trevisan

02 de julho de 2012 | 06h27

O novo governador de Hong Kong, C.Y. Leung, quebrou uma tradição e fez seu discurso de posse ontem em mandarim e não em cantonês, a língua falada na ex-colônia britânica, em uma metáfora da crescente influência da China continental no quotidiano político e social da ilha. Quando o território voltou ao domínio de Pequim, em 1997, seus moradores receberam a promessa de que as instituições locais permaneceriam intactas por um período de 50 anos. Entre elas, a liberdade de imprensa, a independência do Judiciário e uma tradição de governos livres de corrupção.

Quinze anos depois, a promessa parece cada vez mais distante da realidade. O mais importante jornal em língua inglesa de Hong Kong, o South China Morning Post, é dirigido desde fevereiro por Wang Xiangwei, acusado de praticar autocensura e de ter uma posição favorável a Pequim. Wang não é apenas o primeiro editor-chefe do jornal nascido na China continental. Ele foi editor do estatal China Daily e faz parte da Conferência Consultiva Política do Povo Chinês, um organismo de aconselhamento do governo em Pequim. Difícil imaginar como essas credenciais podem se conciliar com independência jornalística. O South China Morning Post tem uma forte tradição na cobertura de casos importantes de violação de direitos humanos e abusos de poder na China. Mas a determinação do jornal em manter sua linha editorial foi colocada em dúvida depois que Wang transformou em uma nota de roda pé uma reportagem sobre o suspeito “suicídio” de um veterano ativista dos protestos da praça Tiananmen, em 1989.

C.Y. Leung é visto como extremamente alinhado às diretrizes do Partido Comunista da China e sua posse coincidiu com uma manifestações de dezenas de milhares de pessoas nas ruas da ex-colônia britânica. Desde que a ilha retornou ao domínio chinês, o dia 1˚ de julho é marcado por demonstrações em defesa de temas como direitos humanos, liberdade de imprensa, eleições diretas e liberdade de expressão _instituições inexistentes no continente. A marcha de ontem reuniu 400 mil pessoas, segundo seus organizadores, o que seria o dobro do registrado no ano passado. A polícia estimou o número em 63 mil, enquanto a Universidade de Hong Kong avaliou a multidão em algo entre 98 mil e 112 mil pessoas.

Muitas delas gritavam slogans pedindo a renúncia de C.Y., em um reflexo da desconfiança em relação a seus laços com Pequim. O novo governador foi escolhido em março por um colégio eleitoral de 1.200 pessoas originárias de grupos profissionais e empresariais majoritariamente simpáticos à China.

Pequim prometeu aos 7 milhões de habitantes da ilha que eles poderão escolher seu governante em eleição direta em 2017, mas poucos acreditam o processo será realmente democrático. A maioria dos analistas acredita que o Partido Comunista permitirá o sufrágio universal, mas controlará o processo de escolha dos candidatos. Ou seja, os moradores de Hong Kong poderão votar em quem quiserem, mas o cardápio estará restrito às opções chanceladas por Pequim.

A alta adesão ao protesto de ontem é vista como um desafio a C.Y., que terá que superar a desconfiança popular para legitimar seu governo, em um momento de baixa avaliação dos laços entre a ilha e o continente. De acordo com pesquisa da Universidade de Hong Kong, só 37% dos habitantes de Hong Kong sentem hoje orgulho de terem se tornado cidadãos chineses, o mais baixo patamar desde 2001.